CAPÍTULOS 6 E 7
Observação para os dois capítulos: as lições são profundas e seriam precisas para realizar debates para pelo menos 4 encontros, no mínimo. Então, por conta disso, elaboramos várias perguntas diante das palavras apresentadas nestes capítulos, para que possamos refletir intimamente diante dos fatos expostos. Cremos que pode ser valioso instrumento de bússola para todos nós em nossas vidas particulares...
6
Advertências profundas
– “Irmãos nossos – prosseguiu Telésforo, sob o calor de sagrada inspiração –, fazem-se ouvir na Terra gritos comovedores de sofrimento. Necessitamos de servidores que desejem integrar-se na escola evangélica da renúncia.
a) O que significa esta expressão: "escola evangélica da renúncia"? E a partir do entendimento, em que medida pode ser aplicada na tua vida encarnada?
“Desde as
primeiras tarefas do Espiritismo renovador, “Nosso Lar” tem enviado diversas
turmas ao trabalho de disseminação de valores educativos. Centenas de
companheiros partem daqui anualmente, aliando necessidades de resgate ao
serviço redentor; mas ainda não conseguimos os resultados desejáveis. Alguns
alcançaram resultados parciais nas tarefas a desenvolver, mas a maioria tem
fracassado ruidosamente. Nossos institutos de socorro debalde movimentam
medidas de assistência indispensável.
Raríssimos
conquistam algum êxito nos delicados misteres da mediunidade e da doutrinação.
“Outras
colônias de nossa esfera providenciam tarefas da mesma natureza, mas
pouquíssimos são os que se lembram das realidades eternas, no “outro lado do
véu”... A ignorância domina a maioria das consciências encarnadas. E a
ignorância é mãe das misérias, das fraquezas, dos crimes. Grandes instrutores,
nos fluidos da carne, amedrontam-se por sua vez, diante dos atritos humanos, e
se recolhem, indevidamente, na concepção que lhes é própria. Esquecem-se de que
Jesus não esperou que os homens lhe atingissem as glórias magnificentes e que,
ao invés, desceu até ao plano dos homens para amar, ensinar e servir. Não
exigiu que as criaturas se fizessem imediatamente iguais a Ele, mas fez-se como
os homens, para ajudá-los na subida áspera.”
b) Se Telesforo enfatiza os desafios da mediunidade e da doutrinação, quando do espírito encarnado, pois "esquece" a tarefa proposta, quais seriam os meios a serem adotados por nós, no sentido de não nos 'esquecermos" da tarefa mediúnica e de doutrinação? E em cada um de nós, qual é a forma de contribuirmos com a nossa mediunidade e com a nossa possibilidade de doutrinação?
E, com
profundo brilho no olhar, Telésforo acentuou, depois de pequeno intervalo:
– “Se o
Mestre Divino adotou essa norma, que dizer das nossas obrigações de criaturas falidas?
“Abstraindo-nos
das necessidades imensas de outros grupos, procuremos identificar as falhas
existentes naqueles que nos são afins.
“Em derredor
de nós mesmos, os laços pessoais constituem extenso campo de atividade para o
testemunho.
“Cesse, para
nós outros, a concepção de que a Terra é o vale tenebroso, destinado a quedas
lamentáveis, e agasalhemos a certeza de que a esfera carnal é uma grande
oficina de trabalho redentor. Preparemo-nos para a cooperação eficiente e
indispensável.
c) Dentro da concepção clara e transparente de que estamos encarnados em uma grande oficina de trabalho redentor, é preciso que façamos uma análise de como estamos inseridos nesta oficina. Estamos trabalhando com o que, de que forma, em favor de quem?
Esqueçamos os
erros do passado e lembremo-nos de nossas obrigações fundamentais.
“A causa
geral dos desastres mediúnicos é a ausência da noção de responsabilidade e da
recordação do dever a cumprir.
d) Nova oportunidade de reflexão: como criar a noção de responsabilidade? Como recordar o dever que precisamos cumprir quando encarnados???
“Quantos de vós fostes abonados, aqui, por generosos benfeitores que buscaram auxiliar-vos, condoídos de vosso pretérito cruel? Quantos de vós partistes, entusiastas, formulando enormes promessas? Entretanto, não soubestes recapitular dignamente, para aprender a servir, conforme os desígnios superiores do Eterno.
Quando o Senhor vos enviava possibilidades materiais para o necessário, regressáveis à ambição desmedida;
Ante o acréscimo de misericórdia do labor intensificado, agarrastes a ideia da existência cômoda;
Junto às experiências afetivas, preferistes os desvios sexuais;
Ao lado da família, voltastes à tirania doméstica;
Aos interesses da vida eterna sobrepusestes as sugestões inferiores da preguiça e da vaidade;
Destes-vos, na maioria, à palavra sem responsabilidade e à indagação sem discernimento, amontoando atividades inúteis;
Como médiuns, muitos de vós preferíeis a inconsciência de vós mesmos;
Como doutrinadores,
formuláveis conceitos para exportação, jamais para uso próprio.
e) Observem os antagonismos destacados em verde. O que dentro de nossa encarnação atual, podem ser identificadas e o que pode ser modificado. E o mais importante: como?
“Que
resultado atingimos? Grandes massas batem às fontes do Espiritismo sagrado, tão
só no propósito de lhe mancharem as águas. Não são procuradores do Reino de
Deus os que lhe forçam, desse modo, as portas, e sim caçadores dos interesses
pessoais.
São os sequiosos da facilidade, os amigos do menor esforço, os
preguiçosos e delinquentes de todas as situações, que desejam ouvir os
Espíritos desencarnados, receosos da acusação que lhes dirige a própria
consciência. O fel da dúvida invade o bálsamo da fé, nos corações bem
intencionados. A sede de proteção indevida azorraga os seguidores da ociosidade.
A ignorância e a maldade entregam-se às manifestações inferiores da magia
negra.
“Tudo porque,
meus irmãos? Porque não temos sabido defender o sagrado depósito, por termos
esquecido, em nossos labores carnais, que Espiritismo é revelação divina para a
renovação fundamental dos homens. Não atendemos, ainda, como se faz
indispensável, à construção do “Reino de Deus” em nós.
“Contudo, não
abandonemos nossos deveres a meio da tarefa.
Voltemos ao
campo, retificando as semeaduras. O Ministério da Comunicação vem incentivando
esse movimento renovador.
Necessitamos
de servidores de boa vontade, leais ao espírito da fé.
Não serão
admitidos os que não desejarem conhecer a glória oculta da cruz do testemunho,
nem atendem aqui os que se aproximem com objetivos diferentes...
“Aqui estamos
todos, companheiros da Comunicação, endividados com o mundo, mas esperançosos
de êxito em nossa tarefa permanente. Levantemos o olhar. O Senhor renova
diariamente nossas benditas oportunidades de trabalho, mas, para atingirmos os
resultados precisos, é imprescindível sejamos seguidores da renunciação ao
inferior. Nenhum de nós, dos que aqui nos encontramos, está livre do ciclo de
reencarnações na Crosta. Todos, portanto, somos sequiosos de Vida Eterna. Não
olvidemos, desse modo, o Calvário de Nosso Senhor, convictos de que toda saída
dos planos mais baixos deve ser uma subida para a esfera superior. E ninguém
espere subir, espiritualmente, sem esforço, sem suor e sem lágrimas!...”
f) As reflexões dos itens de anteriores encontram-se em grande parte respondidas nas palavras acima de Telésforo. Notem as palavras esforço, suor e lágrimas. Em resumo, não aguardem de forma alguma qualquer facilidade. A jornada será tortuosa e desafiadora. Mas observem que antes destas três palavrinhas, esta claro que falamos do ponto de vista real, que é o ponto de vista espiritual: "subir, espiritualmente,". Bem vindos e bem vindas a nossa idade adulta espiritualmente falando...
Nesse
momento, cessou a preleção de Telésforo, que abençoou a assembleia, mostrando o
olhar infinitamente brilhante e aceitando, em seguida, o braço de Aniceto, para
afastar-se.
Debaixo de
profunda impressão, em face das incisivas declarações do instrutor, observei
que numerosos circunstantes choravam em silêncio.
Ao meu olhar
interrogativo, Vicente explicou:
– São
servidores fracassados.
Nesse
instante, Telésforo e o nosso orientador postaram-se junto de nós.
Duas
senhoras, de grave fisionomia, aproximaram-se respeitosamente e uma delas
dirigiu-se a Aniceto, nestes termos:
– Desejávamos
o obséquio de uma informação concernente à próxima oportunidade de serviço que
será concedida a Otávio.
– O
Ministério prestará esclarecimentos – respondeu o interpelado, atencioso.
– Todavia –
tornou a interlocutora –, ousaria reiterar-lhe o pedido. É que Marina, grande
amiga nossa, casada na Terra há alguns meses, prometeu-me cooperação para
auxiliá-lo, e seria muito de meu agrado localizar, agora, o meu pobre filho em
novos braços maternais.
Aniceto
esboçou um gesto de compreensão, sorriu e esclareceu, sem afetação:
– Convém não
estabelecer o plano por enquanto, porque, antes de tudo, precisamos conhecer a
solução do processo de médiuns fracassados, em que está ele envolvido. Somente
depois, minha irmã.
g) Nesta passagem, percebe-se que existe tempo para que as coisas aconteçam no seu devido momento, porém, mesmo assim, é comum que os que desejam evoluir, seja pela necessidade, pelo amor, pelas boas intenções, mesmo assim, levam tempo e possuem dificuldade em compreender isso. Fica claro isso para todos? Ou ainda é algo que não se percebe, ao ler esta passagem?
Volvi os
olhos para Vicente, sem ocultar a surpresa, mas, enquanto as senhoras se
retiravam conformadas, Aniceto dirigia-nos a palavra:
– Tenho
serviços imediatos, em companhia de Telésforo.
Deixo-os, a
todos, em estudos e observações aqui no Centro de Mensageiros.
Retirou-se
Aniceto com os maiores, e um companheiro declarou alegremente:
– Podemos
conversar.
– Nosso
orientador – explicou-me Vicente, solicito – considera trabalho útil toda
conversação sadia que nos enriqueça os conhecimentos e aptidões para o serviço.
Pelas nossas palestras construtivas, portanto, receberemos também a remuneração
devida à cooperação normal.
Curioso e
surpreendido, indaguei:
– E se eu tentasse
voltar aos assuntos inferiores da Terra, esquecendo a conversação edificante?
Vicente
sorriu e retrucou:
– O prejuízo
seria seu, porque aqui a palavra define o Espírito e, se você fugisse à luz da
palestra instrutiva, nossos orientadores conheceriam sua atitude imediatamente,
porquanto sua presença se tornaria desagradável e seu rosto se cobriria de
sombra indefinível.
h) Aqui está o que reiteramos que, não é simples estar sintonizado em esferas um pouquinho mais evoluídas que o Plano Terrestre. É claramente fácil perceber que é preciso desejar evoluir, e se divorciar das bobagens que ocupamos nosso campo de conversação na Terra, a saber: fofocas, críticas, julgamentos.
Devemos nos acostumar, como alguns amigos valorosos do Plano Espiritual já nos confidenciaram em comunicações mediúnicas, de que precisamos usar as conversas em amigos, em família, mesmo que sejam em locais de festas, de encontros sociais, para fornecer sempre aprendizado útil e edificante. Por mais que possa parecer antagônico, é o que deve ser feito, pois toda oportunidade deve ser útil para fugir da fofoca, da crítica deplorável, do julgamento periculoso.
Não se trata se fanatismo ou de doutrinação religiosa, trata-se de utilizar termos, palavras e assuntos que sejam úteis para a evolução e para o Bem. Claro que colocar em prática no cotidiano é desafio mental a ser superado, após reflexão, percepção e experimentação...
7 A queda de
Otávio
A ausência de
Aniceto deu ensejo a palestras interessantes.
Formaram-se
grupos de conversação amiga.
Impressionado
com as senhoras que haviam solicitado providências para Otávio, pedi a Vicente
me apresentasse a elas, não que me movesse curiosidade menos digna, mas desejo
de alcançar novos valores educativos sobre a tarefa mediúnica, que a palavra de
Telésforo me fizera sentir em tons diferentes.
O amigo
atendeu de boamente.
Em breves
momentos, não me achava tão só à frente das irmãs Isaura e Isabel, mas do
próprio Otávio, um pálido senhor que aparentava quarenta anos.
– Também sou
principiante aqui – expliquei – e minha condição é a do médico falido nos
deveres que o Senhor lhe confiou.
Otávio sorriu
e respondeu:
–
Possivelmente, o meu amigo terá a seu favor o fato de haver ignorado as
verdades eternas, no mundo. O mesmo não ocorre comigo, ai de mim! Não
desconhecia o roteiro certo, que o Pai me designava para as lutas na Terra. Não
possuía títulos oficializados de competência; entretanto, dispunha de
considerável cultura evangélica, coisa que, para a vida eterna, é de maior
importância que a cultura intelectual, simplesmente considerada. Tive amigos
generosos do plano superior, que se faziam visíveis aos meus olhos, recebi
mensagens repletas de amor e sabedoria e, no entanto, cai mesmo assim,
obedecendo à imprevidência e à vaidade.
i) Observa-se aqui a mediunidade aflorada, compreendida e entendida, por Otávio em sua passagem como encarnado.
As
observações de Otávio impressionavam-me vivamente.
Quando no
mundo, eu não tivera contato especial com as escolas espiritistas e
experimentava certa dificuldade para compreender tudo quanto ele desejava
dizer.
j) Leve e passageira observação de como temos grande responsabilidade como pertencentes a Escola do Espiritismo em nossa encarnação atual. André estava a ter dificuldade em compreender as palavras de Otávio... nós as compreendemos, porque a mediunidade é algo claro para nós, pelo menos em suas concepções e em suas responsabilidades. Mas quantos que passaram por nossos caminhos pessoais, tem adotado rumos tortuosos como Otávio? Fica a advertência a todos nós.
– Ignorava a
extensão das responsabilidades mediúnicas – respondi.
– As tarefas
espirituais – tornou o interlocutor, algo acabrunhado – ocupam-se de interesses
eternos e daí a enormidade de minha falta. Os mordomos de bens da alma estão
investidos de responsabilidades pesadíssimas. Os estudiosos, os crentes, os
simpatizantes, no campo da fé, podem alegar ignorância e inibição; todavia, os
sacerdotes não têm desculpa. É o mesmo que se verifica na tarefa mediúnica. Os
aprendizes ou beneficiários, nos templos da Revelação nova, podem referir-se a
determinados impedimentos; mas o missionário é obrigado a caminhar com um
patrimônio de certezas tais, que coisa alguma o exonera das culpas adquiridas.
– Mas, meu
amigo – perguntei, assaz impressionado –, que teria motivado seu martírio moral?
Noto-o tão consciente de si mesmo, tão superiormente informado sobre as leis da
vida, que me custa acreditar se encontre necessitado de novas experiências
nesse capítulo...
Ambas as
senhoras presentes mostraram estranho brilho no olhar, enquanto Otávio
respondia:
– Relatarei
minha queda. Verá como perdi maravilhosa oportunidade de elevação.
E, após mais
longa pausa, continuou, gravemente:
– “Depois de
contrair dívidas enormes na esfera carnal, noutro tempo, vim bater às portas de
“Nosso Lar”, sendo atendido por irmãos dedicados, que se revelaram incansáveis
para comigo. Preparei-me, então, durante trinta anos consecutivos, para voltar
à Terra em tarefa mediúnica, desejoso de saldar minhas contas e elevar-me
alguma coisa. Não faltaram lições verdadeiramente sublimes, nem estímulos
santos ao meu coração imperfeito. O Ministério da Comunicação favoreceu-me com
todas as facilidades e, sobretudo, seis entidades amigas movimentaram os
maiores recursos em benefício do meu êxito. Técnicos do Auxílio acompanharam-me
à Terra, nas vésperas do meu renascimento, entregando-me um corpo físico
rigorosamente sadio. Segundo a magnanimidade dos meus benfeitores daqui,
ser-me-ia concedido certo trabalho de relevo, na esfera de consolação às
criaturas.
Permaneceria
junto das falanges de colaboradores encarregados do Brasil, animando-lhes os
esforços o atendendo a irmãos outros, ignorantes, perturbados ou infelizes. O
matrimônio não deveria entrar na linha de minhas cogitações, não que o
casamento possa colidir com o exercício da mediunidade, mas porque meu caso
particular assim o exigia.
“Nada
obstante, solteiro, deveria receber, aos vinte anos, os seis amigos que muito
trabalharam por mim, em “Nosso Lar”, os quais chegariam ao meu círculo como
órfãos. Meu débito para com essas entidades tornou-se muito grande e a
providência não só constituiria agradável resgate para mim, como também
garantia de triunfo pelo serviço de assistência a elas, o que me preservaria o
coração de leviandades e vacilações, porquanto o ganha-pão laborioso me
compeliria a não aceder a sugestões inferiores nos domínios do sexo e das
ambições incontidas. Ficou também assentado que minhas atividades novas
começariam com muitos sacrifícios, para que o possível carinho de outrem não
amolecesse a minha fibra de realização, e para que se não escravizasse minha
tarefa a situações caprichosas do mundo, distantes dos desígnios de Jesus, e,
sobretudo, para que fosse mantida a impessoalidade do serviço. Mais tarde,
então, com o correr dos anos de edificação, me enviariam de “Nosso Lar”
socorros materiais, cada vez maiores, à medida que fosse testemunhando renúncia
de mim mesmo, desprendimento das posses efêmeras, desinteresse pela remuneração
dos sentidos, de maneira a intensificar, progressivamente, a semeadura de amor
confiada às minhas mãos.
“Tudo
combinado, voltei, não só prometendo fidelidade aos meus instrutores, como
também hipotecando a certeza do meu devotamento às seis entidades amigas, a
quem muito devo até agora.”
Otávio, nesse
momento, fez uma pausa mais longa, suspirou fundamente, e prosseguiu:
– “Mas, ai de
mim, que olvidei todos os compromissos! Os benfeitores de “Nosso Lar”
localizaram-me ao lado de verdadeira serva de Jesus. Minha mãe era espiritista
cristã desde moça, não obstante as tendências materialistas de meu pai, que
era, todavia, um homem de bem.
“Aos treze
anos fiquei órfão de mãe e, aos quinze, começaram para mim os primeiros
chamados da esfera superior. Por essa ocasião, meu pai contraiu segundas
núpcias e, apesar da bondade e cooperação que a madrasta me oferecia, eu me
colocava num plano de falsa superioridade, a respeito dela. Em vão, minha
genitora endereçou, do invisível, apelos sagrados ao meu coração.
Eu vivia
revoltado, entre queixas e lamentações descabidas.
“Meus
parentes conduziram-me a um grupo espiritista de excelente orientação
evangélica, onde minhas faculdades poderiam ser postas a serviço dos
necessitados e sofredores; entretanto, faltavam-me qualidades de trabalhador e
companheiro fiel. Minha negação em matéria de confiança nos orientadores
espirituais e acentuado pendor para a crítica dos atos alheios compeliam-me a
desagradável estacionamento.
“Os
beneméritos amigos do invisível estimulavam-me ao serviço, mas eu duvidava
deles com a minha vaidade doentia. E como prosseguissem os apelos sagrados, por
mim interpretados como alucinações, procurei um médico que me aconselhou
experiências sexuais. Completara, então, dezenove anos e entreguei-me
desenfreadamente ao abuso de faculdades sublimes. Desejava conciliar, à força,
o prazer delituoso e o dever espiritual, alheando-me, cada vez mais, dos
ensinos evangélicos que os amigos da esfera superior nos ministravam.
“Tinha pouco
mais de vinte anos, quando meu pai foi arrebatado pela morte. Com a triste
ocorrência, ficavam na orfandade seis crianças desfavorecidas, porquanto minha
madrasta, ao se consorciar com meu genitor, lhe trouxera para a tutela três
pequeninos. Em vão implorou-me socorro a pobre viúva. Nunca me dignei aceitar
os encargos redentores que me estavam destinados.
“Após dois
anos de segunda viuvez, minha desventurada madrasta foi recolhida a um
leprosário. Afastei-me, então, dos pequenos órfãos, tomado de horror.
Abandonei-os definitivamente, sem refletir que lançava meus credores generosos,
de “Nosso Lar”, a destino incerto. Em seguida, dando largas à ociosidade,
cometi uma ação menos digna e fui obrigado a casar-me pela violência. Mesmo
assim, porém, persistiam os chamados do invisível, revelando-me a inesgotável
misericórdia do Altíssimo.
Contudo, à
medida que olvidava meus deveres, toda tentativa de realização espiritual
figurava-se-me mais difícil. E continuou a tragédia que inventei para meu
próprio tormento.
“A esposa a
que me ligara, tão somente por apetites inconfessáveis, era criatura muito
inferior à minha condição espiritual e atraiu uma entidade monstruosa, em
ligação com ela, para tomar o papel de meu filho. Releguei à rua seis
carinhosas crianças, cuja convivência concorreria decisivamente para minha
segurança moral, mas a companheira e o filho, ao que me pareceu, incumbiram-se
da vingança. Atormentaram-me ambos, até ao fim da existência, quando para aqui
regressei, mal tendo completado quarenta anos, roído pela sífilis, pelo álcool
e pelos desgostos, sem nada haver feito para meu futuro eterno... Sem construir
coisa alguma no terreno do bem...”
Enxugou os
olhos tímidos e concluiu:
– Como vê,
realizei todos os meus condenáveis desejos, menos os desejos de Deus. Foi por
isso que fali, agravando antigos débitos...
Nesse
instante, calou-se como se alguma coisa invisível lhe constringisse a garganta.
Abracei-o com
simpatia fraternal, ansioso de proporcionar-lhe estímulo ao coração, mas Dona Isaura
aproximou-se mais, acariciou-lhe a fronte e falou:
– Não chores,
filho! Jesus não nos falta com a bênção do tempo. Tem calma e coragem...
E
identificando-lhe o carinho, meditei na Bondade Divina, que faz ecoar o cântico
sublime do amor de mãe, mesmo nas regiões de além-morte.
k) Diante do testemunho de Otávio, o que será que dentro de nossa encarnação, estamos realizando, estamos esquecendo, estamos desprezando, estamos negligenciando??? O que será que está no rumo correto e o que será que está completamente desgovernado? Fica a reflexão de COMO identificar a resposta de todas estas indagações. O que acham que pode ser feito para encontrar o COMO?
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