sexta-feira, 17 de junho de 2022

21 DE JUNHO

CAPÍTULOS 6 E 7


Observação para os dois capítulos: as lições são profundas e seriam precisas para realizar debates para pelo menos 4 encontros, no mínimo. Então, por conta disso, elaboramos várias perguntas diante das palavras apresentadas nestes capítulos, para que possamos refletir intimamente diante dos fatos expostos. Cremos que pode ser valioso instrumento de bússola para todos nós em nossas vidas particulares...


6 Advertências profundas

 

– “Irmãos nossos – prosseguiu Telésforo, sob o calor de sagrada inspiração –, fazem-se ouvir na Terra gritos comovedores de sofrimento. Necessitamos de servidores que desejem integrar-se na escola evangélica da renúncia.


a) O que significa esta expressão: "escola evangélica da renúncia"? E a partir do entendimento, em que medida pode ser aplicada na tua vida encarnada?


“Desde as primeiras tarefas do Espiritismo renovador, “Nosso Lar” tem enviado diversas turmas ao trabalho de disseminação de valores educativos. Centenas de companheiros partem daqui anualmente, aliando necessidades de resgate ao serviço redentor; mas ainda não conseguimos os resultados desejáveis. Alguns alcançaram resultados parciais nas tarefas a desenvolver, mas a maioria tem fracassado ruidosamente. Nossos institutos de socorro debalde movimentam medidas de assistência indispensável.

Raríssimos conquistam algum êxito nos delicados misteres da mediunidade e da doutrinação.

“Outras colônias de nossa esfera providenciam tarefas da mesma natureza, mas pouquíssimos são os que se lembram das realidades eternas, no “outro lado do véu”... A ignorância domina a maioria das consciências encarnadas. E a ignorância é mãe das misérias, das fraquezas, dos crimes. Grandes instrutores, nos fluidos da carne, amedrontam-se por sua vez, diante dos atritos humanos, e se recolhem, indevidamente, na concepção que lhes é própria. Esquecem-se de que Jesus não esperou que os homens lhe atingissem as glórias magnificentes e que, ao invés, desceu até ao plano dos homens para amar, ensinar e servir. Não exigiu que as criaturas se fizessem imediatamente iguais a Ele, mas fez-se como os homens, para ajudá-los na subida áspera.”


b) Se Telesforo enfatiza os desafios da mediunidade e da doutrinação, quando do espírito encarnado, pois "esquece" a tarefa proposta, quais seriam os meios a serem adotados por nós, no sentido de não nos 'esquecermos" da tarefa mediúnica e de doutrinação? E em cada um de nós, qual é a forma de contribuirmos com a nossa mediunidade e com a nossa possibilidade de doutrinação?


E, com profundo brilho no olhar, Telésforo acentuou, depois de pequeno intervalo:

– “Se o Mestre Divino adotou essa norma, que dizer das nossas obrigações de criaturas falidas?

“Abstraindo-nos das necessidades imensas de outros grupos, procuremos identificar as falhas existentes naqueles que nos são afins.

“Em derredor de nós mesmos, os laços pessoais constituem extenso campo de atividade para o testemunho.

“Cesse, para nós outros, a concepção de que a Terra é o vale tenebroso, destinado a quedas lamentáveis, e agasalhemos a certeza de que a esfera carnal é uma grande oficina de trabalho redentor. Preparemo-nos para a cooperação eficiente e indispensável.


c) Dentro da concepção clara e transparente de que estamos encarnados em uma grande oficina de trabalho redentor, é preciso que façamos uma análise de como estamos inseridos nesta oficina. Estamos trabalhando com o que, de que forma, em favor de quem?


Esqueçamos os erros do passado e lembremo-nos de nossas obrigações fundamentais.

“A causa geral dos desastres mediúnicos é a ausência da noção de responsabilidade e da recordação do dever a cumprir.


d) Nova oportunidade de reflexão: como criar a noção de responsabilidade? Como recordar o dever que precisamos cumprir quando encarnados???

“Quantos de vós fostes abonados, aqui, por generosos benfeitores que buscaram auxiliar-vos, condoídos de vosso pretérito cruel? Quantos de vós partistes, entusiastas, formulando enormes promessas? Entretanto, não soubestes recapitular dignamente, para aprender a servir, conforme os desígnios superiores do Eterno. 

Quando o Senhor vos enviava possibilidades materiais para o necessário, regressáveis à ambição desmedida; 

Ante o acréscimo de misericórdia do labor intensificado, agarrastes a ideia da existência cômoda; 

Junto às experiências afetivas, preferistes os desvios sexuais; 

Ao lado da família, voltastes à tirania doméstica;

Aos interesses da vida eterna sobrepusestes as sugestões inferiores da preguiça e da vaidade;

Destes-vos, na maioria, à palavra sem responsabilidade e à indagação sem discernimento, amontoando atividades inúteis; 

Como médiuns, muitos de vós preferíeis a inconsciência de vós mesmos; 

Como doutrinadores, formuláveis conceitos para exportação, jamais para uso próprio.


e) Observem os antagonismos destacados em verde. O que dentro de nossa encarnação atual, podem ser identificadas e o que pode ser modificado. E o mais importante: como?


“Que resultado atingimos? Grandes massas batem às fontes do Espiritismo sagrado, tão só no propósito de lhe mancharem as águas. Não são procuradores do Reino de Deus os que lhe forçam, desse modo, as portas, e sim caçadores dos interesses pessoais.

São os sequiosos da facilidade, os amigos do menor esforço, os preguiçosos e delinquentes de todas as situações, que desejam ouvir os Espíritos desencarnados, receosos da acusação que lhes dirige a própria consciência. O fel da dúvida invade o bálsamo da fé, nos corações bem intencionados. A sede de proteção indevida azorraga os seguidores da ociosidade. A ignorância e a maldade entregam-se às manifestações inferiores da magia negra.

“Tudo porque, meus irmãos? Porque não temos sabido defender o sagrado depósito, por termos esquecido, em nossos labores carnais, que Espiritismo é revelação divina para a renovação fundamental dos homens. Não atendemos, ainda, como se faz indispensável, à construção do “Reino de Deus” em nós.

“Contudo, não abandonemos nossos deveres a meio da tarefa.

Voltemos ao campo, retificando as semeaduras. O Ministério da Comunicação vem incentivando esse movimento renovador.

Necessitamos de servidores de boa vontade, leais ao espírito da fé.

Não serão admitidos os que não desejarem conhecer a glória oculta da cruz do testemunho, nem atendem aqui os que se aproximem com objetivos diferentes...

“Aqui estamos todos, companheiros da Comunicação, endividados com o mundo, mas esperançosos de êxito em nossa tarefa permanente. Levantemos o olhar. O Senhor renova diariamente nossas benditas oportunidades de trabalho, mas, para atingirmos os resultados precisos, é imprescindível sejamos seguidores da renunciação ao inferior. Nenhum de nós, dos que aqui nos encontramos, está livre do ciclo de reencarnações na Crosta. Todos, portanto, somos sequiosos de Vida Eterna. Não olvidemos, desse modo, o Calvário de Nosso Senhor, convictos de que toda saída dos planos mais baixos deve ser uma subida para a esfera superior. E ninguém espere subir, espiritualmente, sem esforço, sem suor e sem lágrimas!...”


f) As reflexões dos itens de anteriores encontram-se em grande parte respondidas nas palavras acima de Telésforo. Notem as palavras esforço, suor e lágrimas. Em resumo, não aguardem de forma alguma qualquer facilidade. A jornada será tortuosa e desafiadora. Mas observem que antes destas três palavrinhas, esta claro que falamos do ponto de vista real, que é o ponto de vista espiritual: "subir, espiritualmente,". Bem vindos e bem vindas a nossa idade adulta espiritualmente falando...

Nesse momento, cessou a preleção de Telésforo, que abençoou a assembleia, mostrando o olhar infinitamente brilhante e aceitando, em seguida, o braço de Aniceto, para afastar-se.

Debaixo de profunda impressão, em face das incisivas declarações do instrutor, observei que numerosos circunstantes choravam em silêncio.

Ao meu olhar interrogativo, Vicente explicou:

– São servidores fracassados.

Nesse instante, Telésforo e o nosso orientador postaram-se junto de nós.

Duas senhoras, de grave fisionomia, aproximaram-se respeitosamente e uma delas dirigiu-se a Aniceto, nestes termos:

– Desejávamos o obséquio de uma informação concernente à próxima oportunidade de serviço que será concedida a Otávio.

– O Ministério prestará esclarecimentos – respondeu o interpelado, atencioso.

– Todavia – tornou a interlocutora –, ousaria reiterar-lhe o pedido. É que Marina, grande amiga nossa, casada na Terra há alguns meses, prometeu-me cooperação para auxiliá-lo, e seria muito de meu agrado localizar, agora, o meu pobre filho em novos braços maternais.

Aniceto esboçou um gesto de compreensão, sorriu e esclareceu, sem afetação:

– Convém não estabelecer o plano por enquanto, porque, antes de tudo, precisamos conhecer a solução do processo de médiuns fracassados, em que está ele envolvido. Somente depois, minha irmã.


g) Nesta passagem, percebe-se que existe tempo para que as coisas aconteçam no seu devido momento, porém, mesmo assim, é comum que os que desejam evoluir, seja pela necessidade, pelo amor, pelas boas intenções, mesmo assim, levam tempo e possuem dificuldade em compreender isso. Fica claro isso para todos? Ou ainda é algo que não se percebe, ao ler esta passagem?


Volvi os olhos para Vicente, sem ocultar a surpresa, mas, enquanto as senhoras se retiravam conformadas, Aniceto dirigia-nos a palavra:

– Tenho serviços imediatos, em companhia de Telésforo.

Deixo-os, a todos, em estudos e observações aqui no Centro de Mensageiros.

Retirou-se Aniceto com os maiores, e um companheiro declarou alegremente:

– Podemos conversar.

– Nosso orientador – explicou-me Vicente, solicito – considera trabalho útil toda conversação sadia que nos enriqueça os conhecimentos e aptidões para o serviço. Pelas nossas palestras construtivas, portanto, receberemos também a remuneração devida à cooperação normal.

Curioso e surpreendido, indaguei:

– E se eu tentasse voltar aos assuntos inferiores da Terra, esquecendo a conversação edificante?

Vicente sorriu e retrucou:

– O prejuízo seria seu, porque aqui a palavra define o Espírito e, se você fugisse à luz da palestra instrutiva, nossos orientadores conheceriam sua atitude imediatamente, porquanto sua presença se tornaria desagradável e seu rosto se cobriria de sombra indefinível.


h) Aqui está o que reiteramos que, não é simples estar sintonizado em esferas um pouquinho mais evoluídas que o Plano Terrestre. É claramente fácil perceber que é preciso desejar evoluir, e se divorciar das bobagens que ocupamos nosso campo de conversação na Terra, a saber: fofocas, críticas, julgamentos.

Devemos nos acostumar, como alguns amigos valorosos do Plano Espiritual já nos confidenciaram em comunicações mediúnicas, de que precisamos usar as conversas em amigos, em família, mesmo que sejam em locais de festas, de encontros sociais, para fornecer sempre aprendizado útil e edificante. Por mais que possa parecer antagônico, é o que deve ser feito, pois toda oportunidade deve ser útil para fugir da fofoca, da crítica deplorável, do julgamento periculoso.

Não se trata se fanatismo ou de doutrinação religiosa, trata-se de utilizar termos, palavras e assuntos que sejam úteis para a evolução e para o Bem. Claro que colocar em prática no cotidiano é desafio mental a ser superado, após reflexão, percepção e experimentação...

 

7 A queda de Otávio

 

A ausência de Aniceto deu ensejo a palestras interessantes.

Formaram-se grupos de conversação amiga.

Impressionado com as senhoras que haviam solicitado providências para Otávio, pedi a Vicente me apresentasse a elas, não que me movesse curiosidade menos digna, mas desejo de alcançar novos valores educativos sobre a tarefa mediúnica, que a palavra de Telésforo me fizera sentir em tons diferentes.

O amigo atendeu de boamente.

Em breves momentos, não me achava tão só à frente das irmãs Isaura e Isabel, mas do próprio Otávio, um pálido senhor que aparentava quarenta anos.

– Também sou principiante aqui – expliquei – e minha condição é a do médico falido nos deveres que o Senhor lhe confiou.

Otávio sorriu e respondeu:

– Possivelmente, o meu amigo terá a seu favor o fato de haver ignorado as verdades eternas, no mundo. O mesmo não ocorre comigo, ai de mim! Não desconhecia o roteiro certo, que o Pai me designava para as lutas na Terra. Não possuía títulos oficializados de competência; entretanto, dispunha de considerável cultura evangélica, coisa que, para a vida eterna, é de maior importância que a cultura intelectual, simplesmente considerada. Tive amigos generosos do plano superior, que se faziam visíveis aos meus olhos, recebi mensagens repletas de amor e sabedoria e, no entanto, cai mesmo assim, obedecendo à imprevidência e à vaidade.


i) Observa-se aqui a mediunidade aflorada, compreendida e entendida, por Otávio em sua passagem como encarnado.


As observações de Otávio impressionavam-me vivamente.

Quando no mundo, eu não tivera contato especial com as escolas espiritistas e experimentava certa dificuldade para compreender tudo quanto ele desejava dizer.


j) Leve e passageira observação de como temos grande responsabilidade como pertencentes a Escola do Espiritismo em nossa encarnação atual. André estava a ter dificuldade em compreender as palavras de Otávio... nós as compreendemos, porque a mediunidade é algo claro para nós, pelo menos em suas concepções e em suas responsabilidades. Mas quantos que passaram por nossos caminhos pessoais, tem adotado rumos tortuosos como Otávio? Fica a advertência a todos nós.

– Ignorava a extensão das responsabilidades mediúnicas – respondi.

– As tarefas espirituais – tornou o interlocutor, algo acabrunhado – ocupam-se de interesses eternos e daí a enormidade de minha falta. Os mordomos de bens da alma estão investidos de responsabilidades pesadíssimas. Os estudiosos, os crentes, os simpatizantes, no campo da fé, podem alegar ignorância e inibição; todavia, os sacerdotes não têm desculpa. É o mesmo que se verifica na tarefa mediúnica. Os aprendizes ou beneficiários, nos templos da Revelação nova, podem referir-se a determinados impedimentos; mas o missionário é obrigado a caminhar com um patrimônio de certezas tais, que coisa alguma o exonera das culpas adquiridas.

– Mas, meu amigo – perguntei, assaz impressionado –, que teria motivado seu martírio moral? Noto-o tão consciente de si mesmo, tão superiormente informado sobre as leis da vida, que me custa acreditar se encontre necessitado de novas experiências nesse capítulo...

Ambas as senhoras presentes mostraram estranho brilho no olhar, enquanto Otávio respondia:

– Relatarei minha queda. Verá como perdi maravilhosa oportunidade de elevação.

E, após mais longa pausa, continuou, gravemente:

– “Depois de contrair dívidas enormes na esfera carnal, noutro tempo, vim bater às portas de “Nosso Lar”, sendo atendido por irmãos dedicados, que se revelaram incansáveis para comigo. Preparei-me, então, durante trinta anos consecutivos, para voltar à Terra em tarefa mediúnica, desejoso de saldar minhas contas e elevar-me alguma coisa. Não faltaram lições verdadeiramente sublimes, nem estímulos santos ao meu coração imperfeito. O Ministério da Comunicação favoreceu-me com todas as facilidades e, sobretudo, seis entidades amigas movimentaram os maiores recursos em benefício do meu êxito. Técnicos do Auxílio acompanharam-me à Terra, nas vésperas do meu renascimento, entregando-me um corpo físico rigorosamente sadio. Segundo a magnanimidade dos meus benfeitores daqui, ser-me-ia concedido certo trabalho de relevo, na esfera de consolação às criaturas.

Permaneceria junto das falanges de colaboradores encarregados do Brasil, animando-lhes os esforços o atendendo a irmãos outros, ignorantes, perturbados ou infelizes. O matrimônio não deveria entrar na linha de minhas cogitações, não que o casamento possa colidir com o exercício da mediunidade, mas porque meu caso particular assim o exigia.

“Nada obstante, solteiro, deveria receber, aos vinte anos, os seis amigos que muito trabalharam por mim, em “Nosso Lar”, os quais chegariam ao meu círculo como órfãos. Meu débito para com essas entidades tornou-se muito grande e a providência não só constituiria agradável resgate para mim, como também garantia de triunfo pelo serviço de assistência a elas, o que me preservaria o coração de leviandades e vacilações, porquanto o ganha-pão laborioso me compeliria a não aceder a sugestões inferiores nos domínios do sexo e das ambições incontidas. Ficou também assentado que minhas atividades novas começariam com muitos sacrifícios, para que o possível carinho de outrem não amolecesse a minha fibra de realização, e para que se não escravizasse minha tarefa a situações caprichosas do mundo, distantes dos desígnios de Jesus, e, sobretudo, para que fosse mantida a impessoalidade do serviço. Mais tarde, então, com o correr dos anos de edificação, me enviariam de “Nosso Lar” socorros materiais, cada vez maiores, à medida que fosse testemunhando renúncia de mim mesmo, desprendimento das posses efêmeras, desinteresse pela remuneração dos sentidos, de maneira a intensificar, progressivamente, a semeadura de amor confiada às minhas mãos.

“Tudo combinado, voltei, não só prometendo fidelidade aos meus instrutores, como também hipotecando a certeza do meu devotamento às seis entidades amigas, a quem muito devo até agora.”

Otávio, nesse momento, fez uma pausa mais longa, suspirou fundamente, e prosseguiu:

– “Mas, ai de mim, que olvidei todos os compromissos! Os benfeitores de “Nosso Lar” localizaram-me ao lado de verdadeira serva de Jesus. Minha mãe era espiritista cristã desde moça, não obstante as tendências materialistas de meu pai, que era, todavia, um homem de bem.

“Aos treze anos fiquei órfão de mãe e, aos quinze, começaram para mim os primeiros chamados da esfera superior. Por essa ocasião, meu pai contraiu segundas núpcias e, apesar da bondade e cooperação que a madrasta me oferecia, eu me colocava num plano de falsa superioridade, a respeito dela. Em vão, minha genitora endereçou, do invisível, apelos sagrados ao meu coração.

Eu vivia revoltado, entre queixas e lamentações descabidas.

“Meus parentes conduziram-me a um grupo espiritista de excelente orientação evangélica, onde minhas faculdades poderiam ser postas a serviço dos necessitados e sofredores; entretanto, faltavam-me qualidades de trabalhador e companheiro fiel. Minha negação em matéria de confiança nos orientadores espirituais e acentuado pendor para a crítica dos atos alheios compeliam-me a desagradável estacionamento.

“Os beneméritos amigos do invisível estimulavam-me ao serviço, mas eu duvidava deles com a minha vaidade doentia. E como prosseguissem os apelos sagrados, por mim interpretados como alucinações, procurei um médico que me aconselhou experiências sexuais. Completara, então, dezenove anos e entreguei-me desenfreadamente ao abuso de faculdades sublimes. Desejava conciliar, à força, o prazer delituoso e o dever espiritual, alheando-me, cada vez mais, dos ensinos evangélicos que os amigos da esfera superior nos ministravam.

“Tinha pouco mais de vinte anos, quando meu pai foi arrebatado pela morte. Com a triste ocorrência, ficavam na orfandade seis crianças desfavorecidas, porquanto minha madrasta, ao se consorciar com meu genitor, lhe trouxera para a tutela três pequeninos. Em vão implorou-me socorro a pobre viúva. Nunca me dignei aceitar os encargos redentores que me estavam destinados.

“Após dois anos de segunda viuvez, minha desventurada madrasta foi recolhida a um leprosário. Afastei-me, então, dos pequenos órfãos, tomado de horror. Abandonei-os definitivamente, sem refletir que lançava meus credores generosos, de “Nosso Lar”, a destino incerto. Em seguida, dando largas à ociosidade, cometi uma ação menos digna e fui obrigado a casar-me pela violência. Mesmo assim, porém, persistiam os chamados do invisível, revelando-me a inesgotável misericórdia do Altíssimo.

Contudo, à medida que olvidava meus deveres, toda tentativa de realização espiritual figurava-se-me mais difícil. E continuou a tragédia que inventei para meu próprio tormento.

“A esposa a que me ligara, tão somente por apetites inconfessáveis, era criatura muito inferior à minha condição espiritual e atraiu uma entidade monstruosa, em ligação com ela, para tomar o papel de meu filho. Releguei à rua seis carinhosas crianças, cuja convivência concorreria decisivamente para minha segurança moral, mas a companheira e o filho, ao que me pareceu, incumbiram-se da vingança. Atormentaram-me ambos, até ao fim da existência, quando para aqui regressei, mal tendo completado quarenta anos, roído pela sífilis, pelo álcool e pelos desgostos, sem nada haver feito para meu futuro eterno... Sem construir coisa alguma no terreno do bem...”

Enxugou os olhos tímidos e concluiu:

– Como vê, realizei todos os meus condenáveis desejos, menos os desejos de Deus. Foi por isso que fali, agravando antigos débitos...

Nesse instante, calou-se como se alguma coisa invisível lhe constringisse a garganta.

Abracei-o com simpatia fraternal, ansioso de proporcionar-lhe estímulo ao coração, mas Dona Isaura aproximou-se mais, acariciou-lhe a fronte e falou:

– Não chores, filho! Jesus não nos falta com a bênção do tempo. Tem calma e coragem...

E identificando-lhe o carinho, meditei na Bondade Divina, que faz ecoar o cântico sublime do amor de mãe, mesmo nas regiões de além-morte.


k) Diante do testemunho de Otávio, o que será que dentro de nossa encarnação, estamos realizando, estamos esquecendo, estamos desprezando, estamos negligenciando??? O que será que está no rumo correto e o que será que está completamente desgovernado? Fica a reflexão de COMO identificar a resposta de todas estas indagações. O que acham que pode ser feito para encontrar o COMO?



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