quarta-feira, 8 de junho de 2022

14 DE JUNHO

CAPÍTULOS 3, 4 E 5


Em nosso encontro desta feita, podemos abordar alguns assuntos:

a) o caso de Vicente na questão da lei de causa e efeito... 

b) as advertências aos trabalhadores espirituais sobre o que de fato está em jogo...

c) a reflexão sobre o compromisso e as consequências dele em nossa caminhada encarnada. Como é, como poderia ser?


3 No Centro de Mensageiros


No dia seguinte, após ouvir longas ponderações de Narcisa, demandei o Centro de Mensageiros, no Ministério da Comunicação. Acompanhava-me o prestimoso Tobias, não obstante os imensos trabalhos que lhe ocupavam o círculo pessoal.


Comentários: Observe a importância de oferecer suporte a alguém querido, mesmo estando com afazeres pessoais...
 

Deslumbrado, atingi a série de majestosos edifícios de que se compõe a sede da instituição. Julguei encontrar algumas universidades reunidas, tal a enorme extensão deles. Pátios amplos, povoados de arvoredo e jardins, convidavam a sublimes meditações.

Tobias arrancou-me do encantamento, exclamando:

– O Centro é muito vasto. Atividades complexas são desempenhadas neste departamento de nossa colônia espiritual. Não creia esteja resumida a instituição nos edifícios sob nossos olhos. Temos, nesta parte, tão somente a administração central e alguns pavilhões destinados ao ensino e à preparação em geral.

– Mas esta organização imensa restringe-se ao movimento de transmissão de mensagens? – perguntei, curioso.

O companheiro sorriu significativamente e esclareceu:

– Não suponha se encontre aqui localizado o serviço de correio, simplesmente. O Centro prepara entidades a fim de que se transformem em cartas vivas de socorro e auxílio aos que sofrem no Umbral, na Crosta e nas Trevas. Acreditaria, porventura, que tanto trabalho se destinasse apenas a mera movimentação de noticiário? Amplie suas vistas. Este serviço é a cópia de quantos se vêm fazendo nas mais diversas cidades espirituais dos planos superiores. Preparam-se aqui numerosos companheiros para a difusão de esperanças e consolos, instruções e avisos, nos diversos setores da evolução planetária. Não me refiro tão só a emissários invisíveis. Organizamos turmas compactas de aprendizes para a reencarnação. Médiuns e doutrinadores saem daqui às centenas, anualmente. Tarefeiros do conforto espiritual encaminham-se para os círculos carnais, em quantidade considerável, habilitados pelo nosso Centro de Mensageiros.


Comentários: A diversidade das tarefas de informação, formação e desenvolvimento da criatura é levado a sério e constitui cópia do que existe em Planos Mais Elevados. Tracemos aqui um pequeno paralelo quanto a forma como observamos a Casa Espírita, os cursos e os tratamentos nos quais participamos...


– Que me diz? – interroguei, surpreso. – Segundo seus informes, os trabalhos de esclarecimento espiritual devem estar muitíssimo adiantados no mundo!...

Fixou Tobias expressão singular, sorriu tranquilamente e explicou:

– Você não ponderou, todavia, meu caro André, que essa preparação não constitui, ainda, a realização propriamente dita. Saem milhares de mensageiros aptos para o Serviço, mas são muito raros os que triunfam. Alguns conseguem execução parcial da tarefa, outros muitos fracassam de todo. O serviço legítimo não é fantasia. É esforço sem o qual a obra não pode aparecer nem prevalecer. Longas fileiras de médiuns e doutrinadores para o mundo carnal partem daqui, com as necessárias instruções, porque os benfeitores da Espiritualidade Superior, para intensificarem a redenção humana, precisam de renúncia e de altruísmo. Quando os mensageiros se esquecem do espírito missionário e da dedicação aos semelhantes, costumam transformar-se em instrumentos inúteis. Há médiuns e mediunidade, doutrinadores e doutrina, como existem a enxada e os trabalhadores. Pode a enxada ser excelente, mas, se falta espírito de serviço no cultivador, o ganho da enxada será inevitavelmente a ferrugem. Assim acontece com as faculdades psíquicas e com os grandes conhecimentos. A expressão mediúnica pode ser riquíssima; entretanto, se o dono não consegue olhar além dos interesses próprios, fracassará fatalmente na tarefa que lhe foi conferida. Acredite, meu caro, que todo trabalho construtivo tem as batalhas que lhe dizem respeito. São muito escassos os servidores que toleram as dificuldades e reveses das linhas de frente. Esmagadora percentagem permanece a distância do fogo forte. Trabalhadores sem conta recuam quando a tarefa abre oportunidades mais valiosas.


Comentários: é a mais pura realidade que encontramos no meio religioso da Terra. Quantos conhecemos nos cursos que simplesmente não aprendem mais do que o básico do básico e sequer colocam em prática? Quantos possuem mediunidade aflorada mas se recusam a trabalhar no seu desenvolvimento e utilidade ao bem do próximo? Quantos não querem mais do que atuar apenas quando não há nada de melhor a realizar em sua vida cotidiana? Quantos podem esclarecer, mas preferem o elogio à reflexão, a facilidade ao trabalho persistente?


Algo impressionado, considerei:

– Isto me surpreende sobremaneira. Não supunha fossem preparados, aqui, determinados mensageiros para a vida carnal.

– Ah! meu amigo – falou Tobias sorridente –, poderia você admitir que as obras do bem estivessem circunscritas a simples operações automáticas? Nossa visão, na Terra, costuma viciar-se no círculo dos cultos externos, na atividade religiosa. Cremos, por lá, resolver todos os problemas pela atitude suplicante. Entretanto, a genuflexão não soluciona questões fundamentais do espírito, nem a mera adoração à Divindade constitui a máxima edificação.

Em verdade, todo ato de humildade e amor é respeitável e santo, e, incontestavelmente, o Senhor nos concederá suas bênçãos; no entanto, é imprescindível considerar que a manutenção e limpeza do vaso, para recolhê-las, é dever que nos assiste. Não preparamos, pois, neste Centro, simples postulistas, mas espíritos que se transformem em cartas vivas de Jesus para a Humanidade encarnada. Pelo menos, este é o programa de nossa administração espiritual...


Comentários: Mais uma vez a reflexão em relação a necessidade de arregaçar as mangas e desistir da ilusão do pedir, pedir, pedir...
 

Calei, emocionado, ponderando a grandeza dos ensinamentos.

Meu companheiro, após longa pausa, prosseguiu observando:

– Raros triunfam, porque quase todos estamos ainda ligados a extenso pretérito de erros criminosos, que nos deformaram a personalidade. Em cada novo ciclo de empreendimentos carnais, acreditamos muito mais em nossas tendências inferiores do passado, que nas possibilidades divinas do presente, complicando sempre o futuro. É desse modo que prosseguimos, por lá, agarrados ao mal e esquecidos do bem, chegando, por vezes, ao disparate de interpretar dificuldades como punições, quando todo obstáculo traduz oportunidade verdadeiramente preciosa aos que já tenham “olhos de ver”.


Comentários: a observação sobre a palavra "oportunidade" descrita acima parece muito clara e óbvia aos habitantes de Nosso Lar, e, no entanto, parece a nós algo ainda a ser considerado como verdadeira descoberta de nossa alma, de nosso ser, ou seja, uma notícia totalmente nova para os que estão encarnados, ainda iludidos com a matéria, o conforto, a estabilidade, a comodidade...


A essa altura, alcançamos enorme recinto.

Centenas de entidades penetravam no vasto edifício, cujas escadarias galgamos em animada conversação.

Os aspectos do maravilhoso átrio impressionavam pela imponente beleza. Espécies de flores, até então desconhecidas para mim, adornavam colunatas, espalhando cores vivas e delicioso perfume.

Quebrando-me o enlevo, Tobias explicou:

– As diversas turmas de aprendizes encaminham-se às aulas.

Procuremos Aniceto no departamento de instrutores.

Atravessamos galerias vastíssimas, sempre defrontados por verdadeiras multidões de entidades que buscavam as aulas, em palestras vibrantes.

Em pequeno grupo que parecia manter conversação muito discreta, encontramos o generoso amigo da véspera, que nos abraçou sorridente e calmo.

– Muito bem! – disse, alegre e bondoso – esperava o novo aluno, desde a manhãzinha.

E em virtude de Tobias alegar muita pressa, o nobre instrutor explicou:

– Doravante, André ficará aos meus cuidados. Volte tranquilo.

Despedi-me do companheiro, comovidamente.

Notando-me o natural acanhamento, Aniceto determinou a um auxiliar de serviço:

– Chame o Vicente em meu nome.

E, voltando-se para mim, esclareceu:

– Até agora, Vicente é o meu único aprendiz médico. Vocês ficarão juntos, em vista da afinidade profissional.

Não haviam decorrido três minutos e tínhamos Vicente diante de nós.

– Vicente – falou Aniceto sem afetação –, André Luiz é nosso novo colaborador. Foi também médico nas esferas carnais. Creio, pois, que ambos se encontrarão à vontade, partilhando a mesma experiência.

O interpelado abraçou-me, demonstrando extrema generosidade, e, após encorajar-me com belas palavras de estímulo, perguntou ao nosso orientador:

– Quando deveremos procurá-lo para os estudos de hoje?

Aniceto pensou um instante e respondeu:

– Esclareça ao novo candidato os nossos regulamentos e venham juntos para as instruções, após o meio-dia.


Comentários: aqui a importância de recepcionar alguém que chega pela primeira vez a território desconhecido. Algo a observarmos em nossas passagens pelos diversos momentos de nossa encarnação terrestre.

 

4 O caso Vicente


Impossível traduzir meu contentamento com a nova companhia.

Vicente, semblante muito calmo, olhar inteligente e lúcido, irradiava carinho e bondade, sensatez e compreensão.

Disse-me de sua alegria por haver encontrado um companheiro médico, alojou-me convenientemente junto dele, demonstrando extrema generosidade fraternal.

Era o primeiro colega na profissão, igualmente recém chegado das esferas da Crosta, de quem me aproximava de modo direto.

Trocamos ideias largamente sobre as surpresas que nos defrontavam. Comentamos as dificuldades oriundas da ilusão terrestre, a miopia da pequena ciência, os problemas profundos e sedutores da medicina espiritual.

Vicente, conquanto não houvesse feito ainda qualquer visita ao plano dos encarnados, em caráter de serviço, admirava Aniceto extraordinariamente, e punha-me ao corrente dos estudos valiosos a que se entregava junto dele.

Estava cheio de conceitos entusiásticos. Em pouco mais de uma hora, nossa intimidade semelhava-se ao sentimento de dois irmãos unidos, desde muito, por laços espirituais, O novo companheiro conquistara-me infinita confiança.

Evidenciando muita delicadeza, indagou da minha posição perante os parentes terrestres, ao que respondi com a história resumida de minha singular aventura, ao conhecer as segundas núpcias de minha viúva. Imprimi toda a ênfase possível ao meu relatório verbal, sensibilizando-me, profundamente, no curso da narrativa. Em cada pormenor culminante dos fatos, detinha-me de propósito, salientando meus velhos sofrimentos e relacionando dissabores que me pareciam insuperáveis.

Vicente ouviu silencioso, sorrindo a intervalos.

Quando terminei a comovida exposição, ele pôs-me a destra no ombro e murmurou:

– Não se julgue desventurado e incompreendido. Saiba, meu caro André, que você foi muitíssimo feliz.

– Como assim?

– Sua Zélia respeitou o companheiro até ao fim e o segundo matrimônio, em tais circunstâncias, não é de admirar. No meu caso, porém, a coisa foi muito pior.

E, dado meu justo espanto, o novo amigo continuou:

– Explico-me.

Meditou alguns instantes, como quem alinhava reminiscências, e prosseguiu:

– Não pode você imaginar como foi intenso o sonho de amor do meu casamento. Logo após a aquisição do diploma profissional, aos vinte e cinco anos, esposei Rosalinda, exultante de ventura. Não levava à esposa tão somente uma situação material confortadora e sólida, no terreno financeiro, mas também os meus tesouros de afeto e devotamento. Minha felicidade não tinha limites. Em pouco tempo, dois filhinhos enriqueceram-me o lar ditoso. Meu bem-estar era inexprimível. Em virtude das reservas bancárias, não me especializei na clínica, consagrando-me, todavia, apaixonadamente, ao laboratório. Atendendo aos meus pendores, não me foi difícil atrair a confiança de numerosos colegas e vários centros de estudos, multiplicando pesquisas e resultados brilhantes. E Rosalinda era a minha primeira e melhor colaboradora. De quando em quando, notava-lhe o enfado no trato com os tubos de ensaio, mas minha esposa sabia então calar as contrariedades pequeninas, a favor da nossa felicidade doméstica. Parecia compreender-me integralmente. Era, aos meus olhos, a mãe dedicada e companheira sem defeitos.

Contávamos dez anos de ventura conjugal, quando meu irmão Eleutério, advogado, solteiro, algo mais velho que eu, deliberou localizar-se junto de nós. Rosalinda foi inexcedível em atenções, considerando que se tratava de pessoa de minha família. Eleutério entrou em nossa casa como irmão. Embora residisse em hotel, compartilhava dos nossos serões caseiros, sempre bem posto e interessado em agradar.

Observei, desde então, que minha mulher se modificava pouco a pouco. Exigiu fosse contratada uma auxiliar que a substituísse nos meus serviços, alegando que os nossos filhinhos não dispensavam assistência maternal, mais assídua. Anui, satisfeito.

Tratava-se, afinal, de providência interessante ao bem-estar de nossos filhos. Contudo, a transformação de Rosalinda assumiu caráter impressionante. Passou a não comparecer ao laboratório, onde tantas vezes nos abraçávamos, alegremente, ao vermos coroadas de êxito nossas pesquisas mais sérias. Preferia o cinema ou a estação de repouso, em companhia de Eleutério.

Isso me entristecia bastante, mas eu não poderia desconfiar da conduta de meu irmão. Fora sempre criterioso, em família, não obstante ousado e filaucioso nas atividades profissionais. Minha vida doméstica, antes tão feliz, passou a ser de solidão assaz amarga, que eu tentava iludir com o trabalho persistente e honesto.

Assim corriam as coisas, quando singular transformação me alterou a experiência. Pequena borbulha na fossa nasal, que nunca me trouxera incômodos de qualquer natureza, depois de levemente ferida, tomou caráter de extrema gravidade. Em poucas horas, declarou-se a septicemia. Reuniram-se colegas em verdadeira assembleia, junto de meu leito. Inúteis, todavia, todos os cuidados; anuladas as melhores expressões de assistência. Compreendi que o fim se aproximava, rápido. Rosalinda e Eleutério pareciam consternados e, até hoje, guardo a impressão de rever-lhes o olhar ansioso, no momento em que a neblina da morte me envolvia os olhos materiais.

Nessa altura, Vicente fez longo estacato, como a fixar reminiscências mais dolorosas, e continuou menos vivaz:

– Depois de algum tempo de tristes perturbações nas zonas inferiores, quando já me encontrava restabelecido, em “Nosso Lar”, certifiquei-me de toda a verdade. Voltando ao lar terreno, encontrei a grande surpresa. Rosalinda havia desposado Eleutério em segundas núpcias.

– Como são idênticas as nossas histórias! – exclamei impressionado.

– Isso é que não – protestou a sorrir.

E continuou:

– Outra surpresa me dilacerava o coração. Somente ao regressar ao lar, soube que fora vítima de odioso crime. Meu próprio irmão inspirou a trama sutil e perversa. Minha mulher e ele apaixonaram-se perdidamente um pelo outro e cederam a tentações inferiores. Não havia que recorrer a divórcio e, mesmo que a legislação o facultasse, constituiria um escândalo o afastamento de Rosalinda para unir-se, publicamente, ao cunhado. Eleutério lembrou, porém, que possuíamos experiências de laboratório e sugeriu a Rosalinda a ideia de me aplicarem determinada cultura microbiana, que ele mesmo se incumbiria de obter, na primeira oportunidade. A pobre da companheira não vacilou e, valendo-se do meu sono descuidado, introduziu na minúscula espinha nasal, algo ferida, o vírus destruidor.

E aí tem você o meu caso naturalmente resumido.

Eu estava assombrado.

– E os criminosos? – perguntei.

Vicente sorriu ligeiramente e informou:

– Rosalinda e Eleutério vivem aparentemente felizes, são excelentes materialistas, por enquanto, e gozam, no mundo transitório, grande fortuna amoedada e alto conceito social.

– Mas... e a justiça? – indaguei, aterrado.

– Ora, André – esclareceu serenamente –, tudo vem a seu tempo, tanto no bem quanto no mal. Primeiro a semente, depois os frutos.

Percebendo-me, porém, as tristes impressões, Vicente concluiu:

– Não falemos mais nisto. Aproxima-se a hora da instrução.

Atendamos às nossas necessidades essenciais, auxiliando os nossos amados, que ainda permanecem a distância, nos círculos terrestres. Não se impressione. A árvore, para produzir, não reclama as folhas mortas. Para nós, atualmente, meu amigo, o mal é simples resultado da ignorância e nada mais.


Comentários: nossas dores podem ser imensas, mas sempre existem dores mais profundas; nossas sensações de justiça não encontram na Terra o real valor e muitas vezes escapa-se a tal justiça dos homens... mas a semente fora lançada... e germinará...

 

 

5 Ouvindo instruções

 

No grande salão, Aniceto esperava-nos, acolhedor.

Fileiras enormes de assistentes enchiam o espaço vastíssimo.

Homens e mulheres, aparentando idades diversas, permaneciam recolhidos, a demonstrar, porém, expectativa e interesse.

– Hoje – explicou o nosso orientador, dirigindo-se a Vicente de maneira particular – teremos a palavra de Telésforo, antigo lidador da Comunicação, que pediu a presença de todos os aprendizes do trabalho de intercâmbio entre nós e os irmãos encarnados.

Sentamo-nos, confortavelmente, aguardando, por nossa vez.

Daí a minutos, Telésforo penetrava no recinto, sob harmoniosas vibrações de simpatia geral.

Aniceto e outros instrutores instalaram-se ao lado dele, em torno da mesa nobre, onde se localizava a direção da assembleia.

Após saudar a assistência numerosíssima, formulando votos de paz e incentivando-nos aos testemunhos redentores, Telésforo atingiu o assunto principal que o levara até ali.

– “Agora – disse com autoridade sem afetação – conversaremos sobre as necessidades da representação de nossa colônia nos trabalhos terrestres. Aqui se encontram companheiros fracassados nas intenções mais nobres e irmãos outros desejosos de colaborar nas tarefas que condizem com as nossas responsabilidades atuais.

Referimo-nos às laboriosas atividades da Comunicação, no plano carnal. Vemos nesta reunião grande parte dos cooperadores de “Nosso Lar”, que faliram nas missões da mediunidade e da doutrinação, bem como outros muitos colegas que se preparam para provas dessa natureza, nos círculos da Crosta.


Comentários: lembra-se muito dos médiuns que se recusam a seguir a tarefa de trabalho e auxílio, mas esquece-se dos chamados doutrinadores, a quem também foram preparados e possuem importante tarefa também... e que também, por vezes, deixam tudo de lado em nome da ilusão, do material.


“Nossa repartição vem promovendo grande movimento de auxílio a irmãos encarnados e desencarnados, que se revelam incapazes de qualquer ação, além da superfície terrestre.

“Nossa tarefa é enorme – Precisamos disseminar ensinamentos novos, relativamente à preparação dos que habitam nossa colônia, considerando os esforços e realizações do presente e do porvir.

“É indispensável socorrer os que enfrentam, corajosos, as profundas transformações do planeta.

“As transições essenciais da existência na Terra encontram a maioria dos homens absolutamente distraídos das realidades eternas. A mente humana abre-se, cada vez mais, para o contato com as expressões invisíveis, dentro das quais funciona e se movimenta. Isto é uma fatalidade evolutiva. Desejamos e necessitamos auxiliar as criaturas terrestres; todavia, contra a extensão de nosso concurso fraterno, operam dilatadas correntes de incompreensão. Não relacionamos apenas a ação da ignorância e da perversidade. Agem, contraditoriamente, nesse particular, grande número de forças do próprio espiritualismo. Combatem-nos algumas escolas cristãs, como se não colaborássemos com o Mestre Divino. A Igreja Romana classifica-nos a cooperação como diabólica.

A Reforma Luterana, em seus matizes variados, persegue-nos a colaboração amistosa. E há correntes espiritualistas de elevado teor educativo, que nos malsinam a influência, por quererem o homem aperfeiçoado de um dia para outro, rigorosamente redimido a golpe instantâneo da vontade, sem realização metódica.

“No campo de nosso conhecimento da vida, não podemos condená-los pelo desentendimento atual. O catolicismo romano tem suas razões ponderáveis; o protestantismo é digno de nosso acatamento; as escolas espiritualistas possuem notáveis edificações. Toda expressão religiosa é sagrada, todo movimento superior de educação espiritual é santo em si mesmo. Temos, então, diante de nós, a incompreensão dos bons, que constitui dolorosa prova para todos os trabalhadores sinceros, porque, afinal, não estamos fazendo obra individual e sim promovendo movimento libertador da consciência humana, a favor da própria ideia religiosa do mundo.

“Sacerdotes e intérpretes dos núcleos organizados da religião e da filosofia, não percebem ainda que o espírito da Revelação é progressivo, como a alma do homem. As concepções religiosas se elevam com a mente da criatura. Muitas Igrejas não compreendem, por enquanto, que não devemos espalhar a crença nos tormentos eternos para os desventurados, e sim a certeza de que há homens infernais criando infernos para si mesmos.

“Não podemos, porém, perder tempo no exame da teimosia alheia. Temos serviços complexos e dilatados. E, como dizíamos, a Humanidade terrena aproxima-se, dia a dia, da esfera de vibrações dos invisíveis de condição inferior, que a rodeia em todos os sentidos. Mas, segundo reconhecemos, esmagadora percentagem de habitantes da Terra não se preparou para os atuais acontecimentos evolutivos. E os mais angustiosos conflitos se verificam no sendal humano. A Ciência progride vertiginosamente no planeta e, no entanto, à medida que se suprimem sofrimentos do corpo, multiplicam-se aflições da alma. Os jornais do mundo estão cheios de notícias maravilhosas, quanto ao progresso material. Segredos sublimes da Natureza são surpreendidos nos domínios do mar, da terra e do ar; mas a estatística dos crimes humanos é espantosa.

Os assassínios da guerra apresentam requintes de perversidade muito além dos que foram conhecidos em épocas anteriores. Os homicídios, os suicídios, as tragédias conjugais, os desastres do sentimento, as greves, os impulsos revolucionários da indisciplina, a sede de experimentação inferior, a inquietação sexual, as moléstias desconhecidas, a loucura, invadem os lares humanos.

Não existe em país algum preparação espiritual bastante para o conforto físico. Entretanto, esse conforto tende a aumentar naturalmente. O homem dominará, cada vez mais, a paisagem exterior que lhe constitui moradia, embora não se conheça a si mesmo.

Atendido, porém, o corpo revelará as necessidades da alma e vemos agora a criatura terrestre assoberbada de problemas graves, não só pelas deficiências de si própria, senão também pela espontânea aproximação psíquica com a esfera vibratória de milhões de desencarnados, que se agarram à Crosta planetária, sequiosos de renovar a existência que menosprezaram, sem maior consideração aos desígnios do Eterno.

“A rigor, também nós compreendemos que os serviços da Comunicação, no mundo, deveriam realizar-se apenas no plano da inspiração divina para os círculos terrenos, do superior para o inferior; mas, como agir diante de milhões de enfermos e criminosos nas zonas visíveis e invisíveis da experiência humana? Pelo simples culto externo, como pretende a Igreja de Roma? Pelo ato de fé, exclusivamente, como espera a Reforma Protestante? Por mera afirmação da vontade, conforme pontificam certas escolas espiritualistas? Não podemos, no entanto, circunscrever apreciações, na visão unilateral do problema. Concordamos que a reverência ao Pai, a fé e a vontade são expressões básicas da realização divina no homem, mas não podemos esquecer que o trabalho é necessidade fundamental de cada espírito. Que outros irmãos nossos perseverem, tão somente, nas especulações teológicas; encaremos, porém, os serviços do Senhor, como se faz indispensável.

“A Humanidade terrena, atualmente, é como um grande organismo coletivo, cujas células, que são as personalidades humanas, se envolvem no desequilíbrio entre si, em processo mundial de reajustamento e redenção.

“Quantos cooperam conosco, vêem a extensão dos cipoais em que se debate a mente humana. Criminosos agarram-se a criminosos, doentes associam-se a doentes. Precisamos oferecer, no mundo, os instrumentos adequados às retificações espirituais, habilitando nossos irmãos encarnados a um maior entendimento do Espírito do Cristo. Para consegui-lo, todavia, necessitamos de colaboradores fiéis, que não cogitem de condições, compensações e discussões, mas que se interessem pela sublimidade do sacrifício e de renunciação com o Senhor.”

A essa altura, Telésforo interrompeu a lição em curso e, fixando o olhar percuciente na assembleia, tornou em voz mais alta:

– Quem não deseje servir, procure outros gêneros de tarefa. A Comunicação não comporta perda de tempo nem experimentação doentia, sem grave prejuízo dos cooperadores incautos. Noutros Ministérios, a designação de trabalhadores define, com precisão, todos os que colaboram com o Divino Mestre. Aqui, porém, acima de trabalhadores, precisamos de servidores que atendam de boa vontade.

Nesse instante, em vista doutra longa pausa, identifiquei a forte impressão dos ouvintes, que se entreolhavam com inexprimível espanto.


Comentários: é um discurso elaborado há quase 80 anos atrás... e mais atual, impossível. Não basta querer trabalhar por trabalhar, é preciso trabalhar com o foco, o carinho, a atenção. Sem isso tudo fica cinzento e sem sentido. A criatura em estágio de desenvolvimento encontrará os meios para servir, mas, é preciso servir de fato.


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