sábado, 25 de junho de 2022

28 DE JUNHO

 CAPÍTULOS 8, 9 E 10


Observações sugeridas a debater...


8 O desastre de Acelino

 

Ia dirigir-me a Otávio novamente, quando alguém se aproximou e falou ao ex-médium, com voz forte:

– Não chore, meu caro. Você não está desamparado. Além isso, pode contar com o devotamento materno. Vivo em piores condições, mas não me faltam esperanças. Sem dúvida, estamos em bancarrota espiritual; no entanto, é razoável aguardarmos, confiantes, novo empréstimo de oportunidades do Tesouro Divino. Deus não está pobre.

Voltei-me surpreendido e não reconheci o recém-chegado.

Dona Isaura fez o obséquio das apresentações.

Estávamos diante de Acelino, que partilhara a mesma experiência.

Fitando-o, triste, Otávio sorriu e advertiu:

– Não sou um criminoso para o mundo, mas sou um falido para Deus e para “Nosso Lar".

– Sejamos, porém, lógicos – revidou Acelino, parecendo mais encorajado –, você perdeu a partida porque não jogou, e eu a perdi jogando desastradamente. Tive onze anos de tormento nas zonas inferiores. Sua situação não reclamou esse drástico. Mesmo assim, confio na Providência.

Nesse instante, interveio Vicente, acrescentando:

– Cada um de nós tem a experiência que lhe é própria. Nem todos ganham nas provas terrestres.

E voltando-se de modo especial, para mim, aduziu:

– Quantos de nós, os médicos, perdemos lamentavelmente na luta?

Depois de concordar, trazendo à baila o meu próprio caso, objetei:

– Seria, porém, muitíssimo interessante conhecer a experiência de Acelino. Teria sofrido o mesmo acidente de Otávio? Creio de grande aproveitamento penetrar essas lições. No mundo, não compreendia bem o que fossem tarefas espirituais, mas aqui a nossa visão se modifica. Há que cogitar do nosso futuro eterno.

Acelino sorriu e obtemperou:

– Minha história é muito diferente. A queda que experimentei apresenta características diversas e, a meu ver, muito mais graves.

E, atendendo-nos a expectativa, prosseguiu, narrando:

– “Também parti de “Nosso Lar”, no século findo, após receber valioso patrimônio instrutivo dos nossos assessores. Segui enriquecido de bênçãos. Uma de nossas beneméritas Ministras da Comunicação presidiu, em pessoa, as medidas atinentes à minha nova tarefa. Não faltaram providências para que me felicitassem a saúde do corpo e o equilíbrio da mente. Após formular grandes promessas aos nossos maiores, parti para uma das grandes cidades brasileiras, em serviço de nossa colônia. O casamento estava em meu roteiro de realizações. Ruth, minha devotada companheira, incumbir-se-ia de colaborar comigo para melhor desempenho das tarefas.

“Cumprida a primeira parte do programa, aos vinte anos de idade fui chamado à tarefa mediúnica, recebendo enorme amparo dos benfeitores invisíveis. Recordo ainda a sincera satisfação dos companheiros do grupo doutrinário. A vidência, a audição e a psicografia, que o Senhor me concedera, por misericórdia, constituíam decisivos fatores de êxito em nossas atividades. A alegria de todos era inexcedível. Entretanto, apesar das lições maravilhosas de amor evangélico, inclinei-me a transformar minhas faculdades em fonte de renda material. Não me dispus a esperar pelos abundantes recursos que o Senhor me enviaria mais tarde, após meus testemunhos no trabalho, e provoquei, eu mesmo, a solução dos problemas lucrativos. Não era meu serviço igual a outros?

Não recebiam os sacerdotes católicos-romanos a remuneração de trabalhos espirituais e religiosos? Se todos pagávamos por serviços ao corpo, que razões haveria para fugir ao pagamento por serviços à alma? Amigos, inscientes do caráter sagrado da fé, aprovavam-me as conclusões egoísticas. Admitíamos que, no fundo, o trabalho essencial era dos desencarnados, mas também havia colaboração minha, pessoal, como intermediário, pelo que devia ser justa a retribuição.

“Debalde, movimentaram-se os amigos espirituais aconselhando-me o melhor caminho. Em vão, companheiros encarnados chamavam-me a esclarecimento oportuno. Agarrei-me ao interesse inferior e fixei meu ponto de vista. Ficaria definitivamente por conta dos consulentes. Arbitrei o preço das consultas, com bonificações especiais aos pobres e desvalidos da sorte, e meu consultório encheu-se de gente.

“Interesse enorme foi despertado entre os que desejavam melhoras físicas e solução de negócios materiais. Grande número de famílias abastadas tomou-me por consultor habitual, para todos os problemas da vida. As lições de espiritualidade superior, a confraternização amiga, o serviço redentor do Evangelho e as preleções dos emissários divinos ficaram à distância. Não mais a escola da virtude, do amor fraternal, da edificação superior, e sim a concorrência comercial, as ligações humanas legais ou criminosas, os caprichos apaixonados, os casos de polícia e todo um cortejo de misérias da Humanidade, em suas experiências menos dignas.

“Transformara-se completamente a paisagem espiritual que me rodeava. À força de me cercar de pessoas criminosas, por questões de ganho sistemático, as baixas correntes mentais dos inquietos clientes encarceraram-me em sombria cadeia psíquica.

Cheguei ao crime de zombar do Evangelho de Nosso Senhor Jesus, esquecido de que os negócios delituosos dos homens de consciência viciada contam igualmente com entidades perniciosas, que se interessam por eles nos planos invisíveis. E transformei a mediunidade em fonte de palpites materiais e baixos avisos.”

Nesse momento, os olhos do narrador cobriram-se de súbita vermelhidão, estampando-se-lhe fundo horror nas pupilas, como se estivesse revivendo atrozes dilacerações.

– Mas a morte chegou, meus amigos, e arrancou-me a fantasia – prosseguiu mais grave –. Desde o instante da grande transição, a ronda escura dos consulentes criminosos, que me haviam precedido no túmulo, rodeou-me a reclamar palpites e orientações de natureza inferior. Queriam notícias de cúmplices encarnados, de resultados comerciais, de soluções atinentes a ligações clandestinas. Gritei, chorei, implorei, mas estava algemado a eles por sinistros elos mentais, em virtude da imprevidência na defesa do meu próprio patrimônio espiritual. Durante onze anos consecutivos, expiei a falta, entre eles, entre o remorso e a amargura.

Acelino calou-se, parecendo mais comovido, em vista das lágrimas abundantes. Fundamente sensibilizado, Vicente considerou:

– Que é isso? Não se atormente assim. Você não cometeu assassínios, nem alimentou a intenção deliberada de espalhar o mal.

A meu ver, você enganou-se também, como tantos de nós. Acelino, porém, enxugou o pranto e respondeu:

– Não fui homicida nem ladrão vulgar, não mantive o propósito íntimo de ferir ninguém, nem desrespeitei alheios lares, mas, indo aos círculos carnais para servir às criaturas de Deus, nossos irmãos, auxiliando-os no crescimento espiritual com Jesus, apenas fiz viciados da crença religiosa e delinquentes ocultos, mutilados da fé e aleijados do pensamento. Não tenho desculpas, porque estava esclarecido; não tenho perdão, porque não me faltou assistência divina.

E, depois de longa pausa, concluiu gravemente:

– Podem avaliar a extensão da minha culpa?


Podemos responder essa pergunta? Novamente apoio do Plano Espiritual, advertências, tentativas, mas respeito ao livre arbítrio... Tentemos responder essa pergunta...

 

9 Ouvindo impressões

 

Deixando Acelino em conversação mais íntima com Otávio, fui levado por Vicente a outro ângulo da sala.

Muitos grupos se mantinham em palestra interessante e educativa, observando eu que quase todos comentavam as derrotas sofridas na Terra.

– Fiz quanto pude – exclamava uma velhinha simpática para duas companheiras que a escutavam atentamente –; no entanto, os laços de família são muito fortes. Algo se fazia ouvir sempre, com voz muito alta, em meu espírito, compelindo-me ao desempenho da tarefa; mas... e o marido? Amâncio nunca se conformou. Se os enfermos me procuravam no receituário comum, agravava-se-lhe a neurastenia; se os companheiros de doutrina me convidavam aos estudos evangélicos, revoltava-se, ciumento. Que pensam vocês?

Chegava a mobilizar minhas filhas contra mim. Como seria possível, em tais circunstâncias, atender a obrigações mediúnicas?

– Todavia – ponderou uma das senhoras que parecia mais segura de si –, sempre temos recursos e pretextos para fugir às culpas. Encaremos nossos problemas com realismo. Há de convir que, com o socorro da boa vontade, sempre lhe ficariam alguns minutos na semana e algumas pequenas oportunidades para fazer o bem. Talvez pudesse conquistar o entendimento do esposo e a colaboração afetuosa das filhas, se trabalhasse em silêncio, mostrando sincera disposição para o sacrifício. Nossos atos, Mariana, são muito mais contagiosos que as nossas palavras.

– Sim – respondeu a interlocutora, emitindo voz diferente –, concordo com a observação. Em verdade, nunca pude sofrer a incompreensão dos meus, sem reclamar.

– Para trabalharmos com eficiência – tornou a companheira, sensata –, é preciso saber calar, antes de tudo. Teríamos atendido perfeitamente aos nossos deveres, se tivéssemos usado todas as receitas de obediência e otimismo que fornecemos aos outros.


O que acham das palavras apresentadas? O trabalhar em silêncio, o aguardar participação dos outros a partir disso? É algo real ou algo que na prática é muito raro? Concordam com as palavras apresentadas?

Aconselhar é sempre útil, mas aconselhar excessivamente pode traduzir esquecimentos de nossas obrigações. Assim digo, porque meu caso, a bem dizer, é muito semelhante ao seu. Fomos ao círculo carnal para construir com Jesus, mas caímos na tolice de acreditar que andávamos pela Terra para discutir nossos caprichos. Não executei minha tarefa mediúnica, em virtude da irritação que me dominou, dada a indiferença dos meus familiares pelos serviços espirituais. Nossos instrutores, aqui, muito me recomendaram, antes, que para bem ensinar é necessário exemplificar melhor. Entretanto, por minha desventura, tudo esqueci no trabalho temporário da Terra. Se meu marido fazia ponderações, eu criava refutações. Não suportava qualquer parecer contrário ao meu ponto de vista, em matéria de crença, incapaz de perceber a vaidade e a tolice dos meus gestos. Das irreflexões nasceu minha perda última, na qual agravei, de muito, as responsabilidades.

Quase mensalmente, Joaquim e eu nos empenhávamos em discussões e não trocávamos apenas os insultos contundentes, mas também os fluidos venenosos, segregados por nossa mente rebelde e enfermiça. Entre os conflitos e suas consequências, passei o tempo inutilizada para qualquer trabalho de elevação espiritual.


Olhe a revelação pertinente as energias... querem comentar?


Nesse instante, chamou-me Vicente para apresentar um amigo.

Ao nosso lado, outro grupo de senhoras conversava animadamente:

– Afinal, Ernestina – indagava uma delas à mais jovem –, qual foi a causa do seu desastre?

– Apenas o medo, minha amiga – explicou-se a interpelada –, tive medo de tudo e de todos. Foi o meu grande mal.

– Mas, como tudo isto impressiona! Você foi muitíssimo preparada. Recordo-me ainda das nossas lições em conjunto. As instrutoras do Esclarecimento confiavam extraordinariamente no seu concurso. Seu aproveitamento era um padrão para nós outras.

– Sim, minha querida Benita, suas reminiscências fazem-me sentir, com mais clareza, a extensão da minha bancarrota pessoal.

Entretanto, não devo fugir à realidade. Fui a culpada de tudo.

Preparei-me o bastante para resgatar antigos débitos e efetuar edificações novas; contudo, não vigiei como se impunha. O chamamento ao serviço ressoou no tempo próprio, orientando-me o raciocínio a melhores esclarecimentos; nossos instrutores me proporcionavam os mais santos incentivos, mas desconfiei dos homens, dos desencarnados e até de mim mesma. Nos estudiosos do plano físico, enxergava pessoas de má fé; nos irmãos invisíveis, presumia encontrar apenas galhofeiros fantasiados de orientadores e, em mim mesma, receava as tendências nocivas. Muitos amigos tinham-me em conta de virtuosa, pelo rigorismo das minhas exigências; todavia, no fundo, eu não passava de enferma voluntária, carregada de aflições inúteis.

– Foi uma grande infantilidade da sua parte – retrucou a outra –, você olvidou que, na esfera carnal, o maior interesse da alma é a realização de algo útil para o bem de todos, com vistas ao Infinito e à Eternidade. Nesse mister, é indispensável contar com o assédio de todos os elementos contrários. Ironias da ignorância, ataques da insensatez, sugestões inferiores da nossa própria animalidade surgirão, com certeza, no caminho de todo trabalhador fiel. São circunstâncias lógicas e fatais do serviço, porque não vamos ao mundo físico para descanso injustificável, mas para lutar pela nossa melhoria, a despeito de todo impedimento fortuito.

– Compreendo, agora – disse a outra –; todavia, o receio das mistificações prejudicou minha bela oportunidade.

– É, minha amiga – tornou a interlocutora –, é tarde para lamentar. Tanto tememos as mistificações, que acabamos por mistificar os serviços do Cristo.


Os desafios contrários surgindo e sendo vistos da forma como necessários para nosso aperfeiçoamento... parece bonito nas palavras, mas pouco compreendido na prática... leva ao desequilíbrio e a alguma espécie de fuga: o medo por exemplo. Alguma observação a fazer aqui?


Eu ouvia a palestra, com interesse crescente, mas o companheiro levou-me adiante para novas apresentações.

Atendia a esses agradáveis deveres da sociedade de “Nosso Lar”, mas, para não perder ensejo de instruir-me, continuava atento às conversações em torno. Alguns cavalheiros mantinham discreta permuta de pareceres.

– Reconheço que fali – dizia um deles em tom grave – e muito já expiei nas regiões inferiores, mas aguardo novos recursos da Providência.

– Faltou-lhe, porém, bastante orientação para o caminho? – perguntava um companheiro.

– Explico-me – esclareceu o primeiro –, faltou-me o amparo da esposa. Enquanto a tive a meu lado, verificava-se profundo equilíbrio em minhas forças psíquicas. A companhia dela, sem que eu pudesse explicar, compensava-me todo gasto de energia mediúnica. Minha noção de balanço estava nas mãos de minha querida Adélia. Esqueci-me, porém, de que o bom servo deve estar preparado para o serviço do Senhor, em qualquer circunstância. Não aprendi a ciência da conformação e nem me resignei a percorrer sozinho as estradas humanas. Quando me senti sem a dedicada companheira, arrebatada pela morte, amedrontei-me, por sentir-me em desequilíbrio e, erradamente, procurei substitui-la, e fui acidentado. Extremamente ligada a entidades malfazejas, minha segunda mulher, com os seus desvarios, arrastou-me a perversões sexuais de que nunca me supusera capaz. Voltei, insensivelmente, ao convívio de criaturas perversas e, tendo começado bem, acabei mal. Meus desastres foram enormes; entretanto, embora reconheça minha deficiência, entendo, ainda hoje, que o triunfo, mesmo no futuro, ser-me-á muito difícil sem a companheira bem-amada.


Nos pontos apresentados aqui, gostariam de comentar? Questões de foco, vibração, afinidade... outros mais?


Tornara-se a palestra sumamente interessante. Desejava acompanhar-lhe o curso, mas Vicente chamou-me a atenção para outro assunto e era necessário acompanhá-lo.

 

10 A experiência de Joel

 

Afastando-nos para um canto do salão, acompanhei Vicente que se dirigiu a um velhote de fisionomia simpática.

– Então, meu caro Joel, como vai? – perguntou, atencioso.

O interpelado teve uma expressão melancólica e informou:

– Graças à Bondade Divina, sinto-me bastante melhorado.

Tenho ido diariamente às aplicações magnéticas dos Gabinetes de Socorro, no Auxílio, e estou mais forte.

– Cederam as vertigens? – indagou o companheiro, com interesse.

– Agora são mais espaçadas e, quando surgem, não me afligem o coração com tanta intensidade.

Nesse instante, Vicente descansou os olhos muito lúcidos nos meus, e disse, sorrindo:

– Joel também andou nos círculos carnais em tarefa mediúnica e pode contar experiência muito interessante.

O novo amigo, que me parecia um enfermo em princípios de convalescença, esboçou melancólico sorriso e falou:

– Fiz minha tentativa na Terra, mas fracassei. A luta não era pequena e fui fraco demais.

– O que mais me impressiona no caso dele, porém – interpôs Vicente em tom fraterno –, é a moléstia que o acompanhou até aqui e persiste ainda agora. Joel atravessou as regiões inferiores com dificuldades extremas, após demorar-se por lá muito tempo, voltando ao Ministério do Auxílio perseguido de alucinações estranhas, relativamente ao pretérito.

– Ao passado? – perguntei, surpreendido.

– Sim – esclareceu Joel, humilde –, minha tarefa mediúnica exigia sensibilidade mais apurada e, quando me comprometi à execução do serviço, fui ao Ministério do Esclarecimento, onde me aplicaram tratamento especial, que me aguçou as percepções.

Necessitava condições sutis para o desempenho dos futuros deveres. Assistentes amigos desdobraram-se em obséquios, por me favorecerem, e parti para a Terra com todos os requisitos indispensáveis ao êxito de minhas obrigações. Infelizmente, porém...

– Mas porque – indaguei – perdeu as realizações? Tão só em virtude da sensibilidade adquirida?

Joel sorriu e obtemperou:

– Não perdi pela sensibilidade, mas pelo seu mau uso.

– Que diz? – tornei, admirado.

– O meu amigo compreenderá sem dificuldades. Imagine que, com um cabedal dessa natureza, ao invés de auxiliar os outros, perdi-me a mim mesmo. É que, segundo concluo agora, Deus concede a sensibilidade apurada como espécie de lente poderosa, que o proprietário deve usar para definir roteiros, fixar perigos e vantagens do caminho, localizar obstáculos comuns, ajudando ao próximo e a si mesmo. Procedi, porém, ao inverso. Não utilizei a lente maravilhosa, no mister justo. Deixando-me empolgar pela curiosidade doentia, apliquei-a tão somente para dilatar minhas sensações. No quadro dos meus trabalhos mediúnicos, estava a recordação de existências pregressas como expressão indispensável ao serviço de esclarecimento coletivo e benefício aos semelhantes, que me fora concedido realizar, mas existe uma ciência de recordar, que não respeitei como devia.

Interrompendo um instante a narrativa, aguçava-me o desejo de conhecer-lhe a experiência pessoal até ao fim. Em seguida, continuou no mesmo diapasão:

– “Ao primeiro chamado da esfera superior, acorri, apressado.

Sentia, intuitivamente, a vívida lembrança de minhas promessas em “Nosso Lar”. Tinha o coração repleto de propósitos sagrados.

Trabalharia. Espalharia muito longe a vibração das verdades eternas. Contudo, aos primeiros contatos com o serviço, a excitação psíquica fez rodar o mecanismo de minhas recordações adormecidas, como o disco sob a agulha da vitrola, e lembrei toda a minha penúltima existência, quando envergara a batina, sob o nome de Monsenhor Alexandre Pizarro, nos últimos períodos da Inquisição Espanhola. Foi, então, que abusei da lente sagrada a que me referi.

“A volúpia das grandes sensações, que pode ser tão prejudicial como o uso do álcool que embriaga os sentidos, fez olvidar os deveres mais santos. Bafejaram-me claridades espirituais de elevada expressão. Desenvolveu-se-me a clarividência, mas não estava satisfeito senão com rever meus companheiros visíveis e invisíveis, no setor das velhas lutas religiosas. Impunha a mim mesmo a obrigação de localizar cada um deles no tempo, fazendo questão de reconstituir-lhes as fichas biográficas, sem cuidar do verdadeiro aproveitamento no campo do trabalho construtivo.

“A audição psíquica tornou-se-me muito clara; entretanto, não queria ouvir os benfeitores espirituais sobre tarefas proveitosas e sim interpelá-los, ousadamente, no capítulo da minha satisfação egoística. Despendi um tempo enorme, dentro do qual fugia aos companheiros que me vinham pedir atividades a bem do próximo, engolfado em pesquisas referentes à Espanha do meu tempo. Exigia notícias de bispos, de autoridades políticas da época, de padres amigos que haviam errado tanto quanto eu mesmo.

“Não faltaram generosas advertências. Frequentemente, os colegas do nosso grupo espiritista chamavam-me a atenção para os problemas sérios de nossa casa. Eram sofredores que nos batiam à porta, situações que reclamavam testemunho cristão. Tínhamos um abrigo de órfãos em projeto, um ambulatório que começava a nascer e, sobretudo, serviços semanais de instrução evangélica, nas noites de terças e sextas-feiras. Mas, qual! eu não queria saber senão das minhas descobertas pessoais. Esqueci que o Senhor me permitia aquelas reminiscências, não por satisfazer-me a vaidade, mas para que entendesse a extensão dos meus débitos para com os necessitados do mundo e me entregasse à obra de esclarecimento e conforto aos feridos da sorte.

“Contrariamente à expectativa dos abnegados amigos que me auxiliaram na obtenção da oportunidade sublime, não me movi no concurso fraterno e desinteressei-me da doutrina consoladora, que hoje revive o Evangelho de Jesus entre os homens. Somente procurei, a rigor, os que se encontravam afins comigo, desde o pretérito. Nesse propósito, descobri, com evidentes sinais de identidade, personalidades outrora eminentes, em relação comigo. Reconheci o senhor Higino de Salcedo, grande proprietário de terras, que me havia sido magnânimo protetor, perante as autoridades religiosas da Espanha, reencarnado como proletário inteligente e honesto, mas em grande experiência de sacrifício individual. Revi o velho Gaspar de Lorenzo, figura solerte de inquisidor cruel, que me quisera muito bem, reencarnado como paralítico e cego de nascença.

“E desse modo, meu amigo, passei a existência, de surpresa em surpresa, de sensação em sensação. Eu, que renascera recordando para edificar alguma coisa de útil, transformei a lembrança em viciação da personalidade. Perdi a oportunidade bendita de redenção e o pior é o estado de alucinação em que vivo. Com o meu erro, a mente desequilibrou-se e as perturbações psíquicas constituem doloroso martírio. Estou sendo submetido a tratamento magnético, de longo tempo.”

Nesse momento, porém, o interlocutor empalideceu de súbito.

Os olhos, desmesuradamente abertos, vagavam como se fixassem quadros impressionantes, muito longe da nossa perspectiva. Depois cambaleou, mas Vicente o amparou de pronto e, passando-lhe a destra na fronte, murmurava em voz firme:

– Joel! Joel! Não se entregue às impressões do passado! Volte ao presente de Deus!...

Profundamente admirado, notei que o convalescente regressava à expressão normal, esfregando os olhos.


 A mente e suas potencialidades... aqui temos um belo cabedal de pontos a serem debatidos: o passado, o presente... como se livrar disso.. como controlar isso,,, vamos abordar essas questões?



Nenhum comentário:

Postar um comentário