sábado, 24 de setembro de 2022

26 DE SETEMBRO

 CAPÍTULOS 30 E 31


30 Em palestra afetuosa

 

Voltávamo-nos em conversação amiga para as belezas de “Nosso Lar”, quando Aldonina interveio, acrescentando:

– Alguns membros de nossa família visitam a cidade de vocês, de tempos a tempos. Nossa irmã Isaura, que se casou em “Campo da Paz”, há três anos, lá reside em companhia do esposo, que é funcionário dos Serviços de Investigação do Ministério do Esclarecimento.

Percebendo-nos a curiosidade, prosseguiu:

– Morava ele conosco, mas, desde muito tempo, foi convocado a serviços por lá, vindo, mais tarde, buscar a noiva.

Vicente, que se mantinha em atitude expectante, exclamou:

– Tocamos num assunto que muita admiração me tem despertado, desde que regressei dos círculos terrenos. Não tinha, no mundo, a menor ideia de que pudéssemos cogitar de uniões matrimoniais, depois da morte do corpo. Quando assisti a festividades dessa natureza, em “Nosso Lar”, confesso que minha surpresa raiou pela estupefação.

Cecília, vivaz, acentuou, sorrindo:

– Isto se deu também conosco. Entretanto, é forçoso reconhecer que tal estado d'alma resulta do exclusivismo pernicioso a que nos entregamos no plano carnal, porque, se o casamento humano é um dos mais belos atos da existência na Terra, porque deixaria de existir aqui, onde a beleza é sempre mais quintessenciada e mais pura? E, além do mais, é imprescindível ponderar que não vivemos à revelia de leis sábias e justas.

– E como são felizes os que se casam em nossos planos! – acentuou o companheiro, denotando aspirações secretas do coração.

Aldonina esboçou um gesto expressivo e considerou:

– Sim, para possuirmos aqui essa ventura, é preciso ter amado na Terra, movimentando os mais nobres impulsos do espírito. Para colher os júbilos dessa natureza, é necessário ter amado com alma. Os que se consagram exclusivamente aos desejos do corpo, não sabem amar além da forma, são incapazes de sentir as profundas vibrações espirituais do amor sem morte.

Desejando, porém, retomar o assunto referente a Isaura, interroguei, curioso:

– Continuem falando-nos da irmã que se mudou para “Nosso Lar”. Estimaria saber como se realizou o consórcio. Se você, Cecília, está aguardando um prêmio de visita à nossa cidade, como se casou ela, transferindo-se para lá definitivamente?

Cecília sorriu e retrucou:

– Isto é outro caso. Isaura não poderia correr atrás do noivo, porque estava em situação inferior à dele, mas Antônio, como superior, poderia descer a buscá-la. Não creiam, porém, que o matrimônio se tenha verificado sem qualquer preparação ou exigência. O noivo poderia conduzi-la sem qualquer formalidade, desde que recebesse o devido consentimento, porquanto obtivera permissão das autoridades de “Nosso Lar”, mas um dos chefes de serviço aconselhou a Isaura, nesse sentido, explicando-lhe que, como administrador de uma colônia em condições de inferioridade, não podia opor qualquer embargo, mas pedia à noiva preparar-se, por seis anos sucessivos, em “Campo da Paz”, antes da partida definitiva, acrescentando sensatamente que, num casamento de almas, é indispensável apurar o enxoval dos sentimentos. Nossa irmã, que foi sempre muito prudente, aceitou a solicitação e trabalhou durante todo esse tempo em nossa colônia, adquirindo valores culturais e aprimorando o campo do pensamento.

Recebia essas delicadas informações, sem disfarçar a enorme surpresa.

– Já fui visitar o casal, uma vez – disse Aldonina, honrada –, quando ganhei o prêmio de assiduidade e bom ânimo. Estive em “Nosso Lar”, durante uma quinzena inesquecível para mim; no entanto, embora visitasse sublimes instituições como o Bosque das Águas, o Salão da Arte Divina, o Campo da Prece Augusta, reconheço ter voltado muito longe de um conhecimento integral da enorme cidade. Lá irei, contudo, mais tarde, pois continuo em meu trabalho e nossos instrutores afirmam sempre que tudo de bom deve aguardar do destino quem saiba servir ao bem e trabalhar com esperança.

Admirando a beleza de sentimentos daquelas jovens, indaguei emocionado:

– Mas não têm vocês, em “Campo da Paz”, instituições semelhantes? Não existirão, por lá, templos de alegria abertos à juventude?

– Ah! sim – murmurou Cecília como quem não desejava ser ingrata às Bênçãos do Eterno –, muito nos dá o Senhor, em nossa colônia; entretanto, permanecemos na vizinhança dos irmãos encarnados – As tempestades que nos atingem, obrigam-nos a serviços constantes. Os quadros interiores que nos cercam são profundamente dolorosos. Nossa cidade não possui Ministérios da União Divina, nem da Elevação. Não podemos receber a influência superior com muita facilidade. Nossos trabalhos de comunicação e auxílio necessitam ainda de muita gente educada no Evangelho, para funcionar com eficiência. Além disso, temos os problemas de finalidade. Nossa colônia foi instituída para socorro urgente. A nosso ver, “Campo da Paz” é, mais que tudo, um avançado centro de enfermagem, rodeado de perigos, porque os irmãos ignorantes e infelizes nos cercam o esforço por todos os lados. De dez em dez quilômetros, nas zonas de nossa vizinhança, há Postos de Socorro como este, que funcionam como instituições de assistência fraternal e sentinelas ativas, ao mesmo tempo.

A jovem fez uma pausa mais longa, observando o efeito de suas palavras, e rematou:

– Nosso governador, quando se agravam os serviços, costuma asseverar que estamos num Campo de batalha, com a Paz de Jesus. Imagem alguma define tão bem o nosso núcleo, como esta. No exterior, o trabalho é rigoroso e incessante, mas, dentro de nós, existe uma tranquilidade que nós mesmos dificilmente podemos compreender.

– O serviço circunscreve-se à cidade? – perguntei.

– Não – o trabalho é multiforme. Eu e Aldonina, por exemplo, temos grandes tarefas de assistência junto dos recémencarnados. Nossa cidade prepara, em média, quinze a vinte reencarnações diárias e torna-se imprescindível assistir os companheiros ou tutelados, pelo menos no período infantil mais tenro, que compreende os primeiros sete anos de existência carnal.

E talvez porque lesse em nossos olhos a mais viva admiração, a jovem adiantou-se, explicando:

– Felizmente, porém, temos as faculdades de volitação bastante adestradas. Raramente encontramos empecilhos vibratórios e podemos, por isso mesmo, agir com grande economia de tempo. Além disso, somente nossos instrutores vão ao serviço sozinhos. Quanto a nós, não saímos, a não ser em grupos. Necessitamos auxílio recíproco, não só no que diz com a eficiência, senão também no que se refere ao amparo magnético.

E, sorrindo de modo singular, concluiu:

– No trabalho de assistência aos outros e defesa de nós mesmos, não podemos dispensar a prática avançada e justa da cooperação sincera.

 

31 Cecília ao órgão

 

Poucas vezes, no círculo carnal, tivera o prazer de assistir a reunião tão seleta.

Todos os lustres estavam magnificamente acesos e, lá fora, as grandes árvores, docemente agitadas pelo vento brando, pareciam refletir o clarão lunar. Pares graciosos passeavam ao longo da varanda e das escadarias extensas. O castelo enchera-se de alegria, com a crescente multiplicação de convidados. O administrador mostrava-se orgulhoso de confraternizar com os colaboradores diretos da sua obra, na recepção condigna aos amigos da colônia próxima. O júbilo transparecia em todos os rostos e eu, observando a beleza do espetáculo, meditava na ventura da vida social, no ambiente daqueles que começavam a compreender e praticar o “amai-vos uns aos outros”, distanciados da hipocrisia e das convenções aviltantes.

Conversávamos, animadamente, quando Alfredo nos convidou para o Salão de Música.

Houve geral contentamento. A senhora Bacelar, dando o braço à nobre Ismália, parecia encantada com a lembrança.

Dirigimo-nos para o grande recinto, prodigiosamente iluminado por luzes de um azul doce e brilhante. Deliciosa música embalava-nos a alma. Observei, então, que um coro de pequenos músicos executava harmoniosa peça, ladeando um grande órgão, algo diferente dos que conhecemos na Terra. Oitenta crianças, meninos e meninas, surgiam, ali, num quadro vivo, encantador. Cinquenta tangiam instrumentos de corda e trinta conservavam-se, graciosamente, em posição de canto... Executavam, com maravilhosa perfeição, uma linda barcarola que eu nunca ouvira no mundo.

Comovidíssimo, ouvi o administrador explicar:

– As crianças do Posto são as nossas flores vivas. Dão-nos perfume, encantamento, alegria, suavizando-nos todos os trabalhos.

Abeiramo-nos do órgão, sentando-nos todos em confortáveis poltronas.

Quando as crianças terminaram, sob aplausos calorosos, Ismália pediu a Cecília executasse alguma coisa.

– Eu? – disse a jovem, corando – se a senhora vem das altas esferas, onde a harmonia é santificada e pura, como poderei executar para os seus ouvidos?

– Não diga isso, Cecília – tornou, sorridente, a generosa esposa do administrador –, a música elevada é sublime em toda parte. Vá, minha filha! lembre-me o lar terreno nos dias mais belos!...

E, antes que a jovem Bacelar perguntasse qual a peça preferida, Ismália continuou:

– Os serviços musicais do Posto levam-me a recordar a velha Fazenda, quando voltava do Internato... Meus pais estimavam as composições européias e, quase todas as noites, ensaiava ao piano...

E, fixando em Cecília os olhos úmidos e brilhantes, rematou:

– Sua mamãe deve lembrar comigo a música predileta de meu velho e carinhoso pai...

Notei que a senhora Bacelar disse alguma coisa à filha, em voz baixa, e vimos Cecília caminhar para o grande instrumento, sem hesitação. Com emoção indizível, ouvimo-la executar, magistralmente, a ‘Tocata e Fuga em Ré Menor”, de Bach, acompanhada pelas crianças exultantes.

Fixei o rosto de Ismália, notando, pela luz do seu olhar, que seus pensamentos vagueavam longe, talvez em torno do antigo ninho doméstico. Vi-a enxugar as lágrimas discretas e abraçar Cecília carinhosamente, ao findar a execução.

– Agora, Cecília, cante alguma canção da própria alma! – falou a nobre senhora com ternuras de mãe – mostre-nos seu coração...

Os senhores Bacelar estavam satisfeitos e emocionados. Lia-se-lhes nos gestos o carinho com que acompanhavam os menores movimentos da filha.

A jovem sorriu, voltou ao teclado, mas permanecia, agora, fundamente transfigurada. Seu belo semblante parecia refletir alguma luz diferente, que vinha de mais alto. Começou a cantar, de maneira misteriosa e comovedora. A música parecia sair-lhe das profundezas do coração, mergulhando-nos em sublime emotividade. Procurei guardar as palavras da maravilhosa canção, mas seria impossível repeti-las integralmente, no círculo dos encarnados na Terra. A sombra da meia-noite não poderia traduzir o revérbero da aurora. Mas de algo me lembro, para registrar aqui, com a fidelidade de que é suscetível minha memória imperfeita.

Como se fora rodeada de claridades diversas daquela em que nos banhávamos, Cecília cantou com voz veludosa e cariciante:

 

“Guardei para os teus olhos

As estrelas brilhantes do céu calmo...

 

Guardei para tua alma

Todos os lírios puros dos caminhos!...

Amado meu, amado meu,

Como é longa a viagem entre escolhos

Neste oceano imenso da saudade,

Ao sublime luar da eternidade!...

Em vão, a fada Esperança

Acende a luz dentro de mim...

Porque te foste ao mundo, assim?

 

Volta, amado!

Ainda mesmo

Que as tuas mãos estejam frias

E que teus pés sangrem de dor.

 

Trago comigo o bálsamo, a ternura,

Volta a mim,

Vem respirar, de novo, no jardim

Da Imortal união!...

 

Curarei tuas chagas de amargura,

Dar-te-ei o roteiro para a estrada,

Amarei os que amas,

Para que me abençoes com o teu sorriso.

Volta, amado!

Esquece a dor e a sombra do passado,

Volta, de novo, ao nosso paraíso!...”

 

Quando desferiu as últimas notas, vi-lhe o semblante lavado em lágrimas, como se fora banhado em pérolas de luz. Observei que a senhora Bacelar, muitíssimo comovida, tocou de leve a mão de Ismália, e falou:

– Cecília nunca o esquece.

A esposa do administrador, mostrando-se extremamente sensibilizada, indagou:

– Não têm vocês novas notícias de Hermínio?

– O pobrezinho tem vivido de queda em queda – esclareceu a nobre interlocutora – e Cecília sabe que não poderá contar com ele, por muito tempo ainda, guardando, por esse motivo, muita mágoa íntima. Entretanto, nossa filha não desanima e trabalha, incessantemente, cheia de esperança.

Nesse momento, porém, a jovem regressava ao círculo familiar, enxugando os olhos.

A esposa de Alfredo abraçou-a e falou:

– Minhas felicitações! não sabia que você progredira tanto na arte divina! E que bela canção!...

Cecília fez um gesto de timidez, beijou a mão da carinhosa amiga e retrucou:

– Perdoe-me, querida Ismália, meu coração permanece ainda muito ligado à Terra!...

Ismália, porém, de olhos úmidos e compreendendo-lhe o sofrimento íntimo, conchegou-a ao peito e murmurou:

– Devotar-se não é crime, minha boa Cecília. O amor é luz de Deus, ainda mesmo quando resplandeça no fundo do abismo.


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