CAPÍTULOS 25, 26 E 27
25 Efeitos da
oração
As luzes da
prece inundaram o vasto recinto. Palpitava em tudo, agora, uma claridade
serena, doce, irradiante, muito diversa da luminosidade artificial. Os flocos
radiosos que partiam de nós multiplicavam-se no ar, como se obedecessem a
misterioso processo de segmentação, e caíam sempre sobre os corpos inanimados e
enrijecidos, dando a impressão de lhes penetrarem as células mais intimas.
Eu estava
boquiaberto. Não me fora permitido contemplar fenômenos dessa natureza em
“Nosso Lar”. Aliás, concluía, ainda não recebera auxílio magnético às
percepções, senão poucas horas antes da viagem.
A claridade
crescia e estendia-se em espetáculo prodigioso.
Agora, porém,
abandonáramos a atitude de recolhimento destinada à concentração de nossas
próprias forças e emissão de energias vibratórias. Nossos corpos, todavia,
continuavam envolvidos em vasto círculo irradiante. Prosseguindo, porém, o
grande silêncio, notei que a luz da oração se fazia mais clara, mais
penetrante. Comecei a ver, como no caso de Ana, que todos aqueles esqueletos
misérrimos apresentavam núcleos de sombra, além das máscaras mortuárias,
núcleos que se mostravam dentro de formas variadíssimas.
As bolhas
luminosas caíam incessantemente, mas agora, como se fossem dirigidas por uma
vontade inteligente, concentravam-se quase todas sobre as frontes imóveis.
Então, pude observar o inaudito e inconcebível para mim.
As múmias,
porque não posso dar outro nome aos irmãos que dormem, começaram a dar sinais
de vida. Alguns daqueles infelizes deixavam escapar gemidos angustiosos, outros
falavam em voz alta, dando conta dos pesadelos que os atormentavam, como
sonâmbulos prestes a despertar. Muitos moviam os pés e as mãos, como a se esforçarem
por fugir ao sono doloroso.
Eminentemente
surpreendido, reparei que dois se levantaram, distante de nós. Recordei que
ambos faziam parte daqueles que haviam recebido toda espécie de assistência,
inclusive o sopro curativo. Olharam-nos de longe, como loucos que acordassem de
súbito, e dispararam a correr, espavoridos, não obstante a impressão de
cadáveres ambulantes, que nos causavam.
Admirado,
verifiquei que ninguém esboçou a menor disposição de segui-los. E quando me
propunha, instintivamente, a fazê-lo, Alfredo deteve-me, exclamando:
– Não se
preocupe. Eles seriam amargamente surpreendidos, se fossem notificados agora de
sua permanência longa entre verdadeiras múmias. Acreditam sonhar e é melhor
assim. Não poderão fugir às nossas fortificações e voltarão a pedir socorro
noutras dependências, a que serão recolhidos para adequado tratamento.
Continuamos
silenciosos mais alguns minutos e notei que as luzes se foram apagando
gradativamente, ao passo que os cadáveres retomavam a imobilidade anterior.
Ismália
declarou terminadas as nossas atividades da oração e o administrador, após o
sinal luminoso, que notificava aos operários o término das obrigações,
adiantou-se para nós, exclamando:
– Gratíssimo
pelo concurso fraternal. Realizamos belo serviço intercessório. Desde alguns
dias, ninguém se levantava.
Aniceto,
percebendo-nos a perplexidade, falou a Vicente e a mim, de maneira
significativa:
– Conforme
viram, o trabalho da prece é mais importante do que se pode imaginar no círculo
dos encarnados. Não há prece sem resposta. E a oração, filha do amor, não é
apenas súplica. É comunhão entre o Criador e a criatura, constituindo, assim, o
mais poderoso influxo magnético que conhecemos. Acresce notar, porém, já que
comentamos o assunto, que a rogativa maléfica conta, igualmente, com enorme
potencial de influenciação. Toda vez que o Espírito se coloca nessa atitude
mental, estabelece um laço de correspondência entre ele o Além. Se a oração traduz
atividade no bem divino, venha donde vier, encaminhar-se-á para o Além em
sentido vertical, buscando as bênçãos da vida superior, cumprindo-nos advertir
que os maus respondem aos maus nos planos inferiores, entrelaçando-se
mentalmente uns com os outros. É razoável, porém, destacar que toda prece
impessoal dirigida às Forças Supremas do Bem, delas recebe resposta imediata,
em nome de Deus. Sobre os que oram nessas tarefas benditas, fluem, das esferas
mais altas, os elementos-força que vitalizam nosso mundo interior,
edificando-nos as esperanças divinas, e se exteriorizam, em seguida,
contagiados de nosso magnetismo pessoal, no intenso desejo de servir com o
Senhor.
E, procurando
materializar o pensamento, para facilitar-nos a compreensão, acentuou:
– Viram,
vocês, cair sobre nós os elementos a que me refiro, e observaram a sua
exteriorização com as luzes de cada um de nós, em benefício dos irmãos que
dormem e sofrem. Concedeu-nos o Altíssimo a força de auxiliar, em porções
iguais para todos, mas nós a espalhamos de acordo com a nossa possibilidade e
coloração individuais. Ismália, cujos sentimentos são mais amplos e
universalistas que os nossos, pôde receber com mais clareza o auxílio divino e
distribuí-lo com mais abundância e eficiência. Temos, aqui, uma profunda lição.
Como já disse, o Pai visita os filhos necessitados, através dos filhos que
procuram compreendê-lo. Não poderíamos abusar do Senhor, como abusamos no
círculo terrestre dos nossos pais humanos. Não vive Ele ao sabor de nossos
caprichos pessoais. Nunca poderia vir, em pessoa, enxugar o pranto do
necessitado que chora, em consequência, aliás, do olvido das Divinas Leis.
Compete ao necessitado caminhar ao reencontro d´Ele. O Senhor, todavia, atende
sempre a todos os homens de boa vontade, por intermédio dos homens bons, que se
edificam na casa divina. Todos os nossos desejos e impulsos razoáveis são
atendidos pelas bênçãos paternais do Eterno. Ainda que nos demoremos nas lágrimas
e nas aflições, jamais permanecemos ao desamparo. Apenas devemos salientar que
as respostas de Deus vão sendo maiores e mais diretas, à medida que se
intensifique o nosso merecimento, competindo-nos reconhecer que, para
semelhantes respostas, são utilizados todos quantos trazem consigo a luz da
bondade, ou já possuem mérito e confiança para auxiliar em nome de Deus.
As explicações
de Aniceto abriam-me novos campos de meditação. O esclarecido instrutor,
contudo, não dera por finda a lição e, depois de longa pausa, concluiu:
– Já que vocês
se encontram comigo num curso de serviço auxiliador, espero aproveitem o máximo
ensinamento desta hora. Reparem que, nestes pavilhões, temos mil e novecentos e
oitenta abrigados que dormem. Todos recebem diariamente alimento e medicação
comuns, mas só quatrocentos são atendidos com alimento e medicação
especializados, por se mostrarem mais suscetíveis de justa melhora. Desses
quatrocentos, apenas dois terços se revelaram aptos à recepção de passes
magnéticos. Muitos não podem receber, por enquanto, a água efluviada. Poucos
foram contemplados com o sopro curativo e somente dois se levantaram, ainda
assim, profundamente perturbados. Já que iniciam um trabalho de cooperação
fraternal, não esqueçam esta lição. Façamos todos o bem, sem qualquer
ansiedade. Semeemo-lo sempre e em toda a parte, mas não estacionemos na
exigência de resultados. O lavrador pode espalhar as sementes à vontade e onde
quer que esteja, mas precisa reconhecer que a germinação, o crescimento e o
resultado pertencem a Deus.
26 Ouvindo
servidores
Notei que o
trabalho no Posto se desenvolvia em ambiente da mais bela camaradagem, não
obstante o respeito natural às noções de hierarquia.
Enquanto
palestrávamos animadamente, Ismália recebia servidoras numerosas, em atitude
verdadeiramente maternal, embora muitas mostrassem o rosto envelhecido,
parecendo avós da esposa do administrador. Aniceto nos ministrava lições de
vulto, extraídas de circunstâncias aparentemente inexpressivas, e Alfredo
recebia os colaboradores de todas as condições, não só com espírito de
solidariedade, mas também de imenso afeto. Ria-se carinhosamente ou fornecia
pareceres, sem o mínimo gesto de impaciência ou irritação.
Aquele clima
de concórdia fazia-me enorme bem. Tudo respirava ordem e compreensão, bondade e
harmonia. A atitude paterna do administrador do Posto de Socorro, expressa em
energia e amizade, organização e entendimento, atraía-me com força.
Pedi permissão
ao nosso orientador para ouvir os esclarecimentos prestados àqueles numerosos
cooperadores.
Aproximei-me,
impressionado.
Nesse momento,
um colaborador de maneiras simpáticas dirigia-lhe a palavra, com grande
interesse. Tratava-se de um velhinho de humilde expressão, que lhe falava com
mostras de justo respeito.
– E o senhor
recebeu as notícias?
– Sim, Alonso
– atendia o chefe, sem afetação –, nossos mensageiros cientificaram-me dos
detalhes mínimos. Sua viúva continua muitíssimo acabrunhada, os filhinhos gozam
saúde, mas permanecem na mesma ansiedade por motivo de sua ausência.
O velho, que
parecia muito bondoso, esboçou um gesto de confirmação e acrescentou:
– Tenho
sentido tanta falta deles!
Nos olhos
transparecia a tristeza resignada, de quem deseja alguma coisa, medindo a
extensão dos obstáculos.
– Você, porém,
Alonso – continuou Alfredo, comovido –, não deve angustiar-se. Sei que está
trabalhando agora pelo futuro da família. Na Terra, na qualidade de pais,
conseguimos movimentar muitas providências a favor dos filhos; entretanto,
aqui, podemos realizar certas medidas em benefício deles, com maior segurança.
Nem sempre agimos no mundo com a necessária visão; mas aqui é possível sentir,
de mais perto, os interesses imperecíveis daqueles que amamos. O sentimento
elevado é sempre um caminho reto para nossa alma; todavia, não podemos dizer o
mesmo, a respeito do sentimentalismo cultivado no círculo da Crosta. É preciso
que você tenha muito cuidado em não desorganizar a mente. A saudade que fere,
impedindo-nos atender à Vontade Divina, não é louvável nem útil. É enfermidade
do coração, precipitando-nos em abismos insondáveis do pensamento.
Alonso deixou
de sorrir, mostrou os olhos rasos d'água e falou em voz súplice:
– Reconheço,
senhor Alfredo, a oportunidade de suas observações. Graças a Jesus, venho
melhorando minha vida mental, nos deveres novos que me concedeu e, de fato,
sinto-me renovado espiritualmente. Sei que sua palavra não me advertiria sem
razão, mas, ousaria pedir licença para visitar a esposa e os filhos. À noite,
quando me concentro nas preces habituais, sinto, em torno de mim, os seus
pensamentos. Esses pensamentos me penetram fundo, atraindo-me toda a atenção
para a Terra. Às vezes, consigo repousar um pouco, mas com muita dificuldade.
Sei que a esposa e os filhos estão chamando, dolorosamente, por mim. Esta
certeza me perturba de algum modo. Não tenho sentido a mesma firmeza para o
trabalho diário e desejaria remediar a situação. Reconheço que minhas
obrigações, presentemente, são outras e que devo estar conformado; no entanto,
confesso que minha luta espiritual tem sido bem grande. Estou certo de que me
perdoará a fraqueza. Que chefe de família não se sentiria atormentado, ouvindo
angustiosos apelos do lar, sem meios de atender, como se faz indispensável?
E, revelando o
enorme anseio d'alma, enxugou os olhos e prosseguiu:
– Quisera
rogar aos meus calma e coragem, esclarecendo que meu coração inda é frágil e
necessita do amparo deles; estimaria pedir-lhes esse auxílio para que eu possa
atender às atuais obrigações, sem desfalecimentos. Quem sabe me concederá,
agora, a permissão precisa? Temos bem perto de nossa casa um grupo de amigos
espíritas... talvez não me fosse difícil transmitir algumas palavras, breves
que fossem, tentando tranquilizar a esposa e os filhos!...
Alfredo,
imperturbável, não respondeu negativamente. Parecia compreender toda a
inquietação do servidor simpático e humilde. Observei-lhe no olhar, muito
lúcido, o desejo sincero de atender e, com extrema simpatia por sua conduta
generosa, ouvi-o ponderar:
– Não será
impossível satisfazê-lo, meu caro Alonso! Nossos emissários poderão conduzi-lo,
nas viagens comuns; entretanto, creia que, como amigo, ficaria preocupado com
você, pela manutenção de sua paz. Não posso abusar da autoridade e sei que cada
um tem a experiência que lhe cabe, mas creio seja de seu vital interesse o
fortalecimento do coração. É imprescindível conformarmo-nos com os desígnios do
Eterno. Você e sua mulher não ficariam separados se não necessitassem de
experiências novas. As dificuldades que ela vem amargando com a sua ausência
sofre-as também você com a separação dela. Tenho a impressão, Alonso, de que
Deus nos deixa sozinhos, por vezes, a fim de refazermos o aprendizado,
melhorando o coração. A soledade, porém, quando aproveitada pela alma, precede
o sublime reencontro. Além disso, você não deve ignorar que os filhos pertencem
a Deus, que cada um deles precisa definir responsabilidades e cogitar da
própria realização. Por enquanto, vivem chorosos, desalentados. A revolta lhes
visita a alma invigilante. Estabeleceu-se a desordem doméstica, depois da sua
vinda. Entretanto, que fazer senão pedir para eles e para nós a bênção do
Eterno? Precisam eles da conformação com a realidade justa e você, que já lhes
deu o que era razoável, necessita, igualmente, evolver e aperfeiçoar-se na
senda nova a que fomos chamados. Em que ficaria, meu caro, se permitisse a
invasão total do sentimentalismo doentio em seus pensamentos? Tão dedicado é
você à família do sangue, que, por agora, não o sinto com bastante preparo a
tudo ver no antigo lar, sem sofrer desastrosamente. Há tempos, autorizei a
visita de dois colegas nossos à esfera da Crosta, a fim de reverem as viúvas e
abraçarem de novo os filhinhos; mas foram tão violentamente surpreendidos pela
situação, que não puderam voltar aos seus deveres aqui, lá ficando agarrados ao
ninho que haviam abandonado. Não vigiaram o coração, convenientemente. Ouviram,
em demasia, o pranto dos familiares terrestres, envolveram-se nos pesados
fluidos do clima doméstico e, passada a semana de licença, não conseguiram
erguer-se para o regresso. Estavam como pássaros aprisionados pelo visgo das
tentações. Os encarregados do noticiário particular voltaram ao Posto sem eles,
com grande surpresa para mim. E, francamente, não sei quando poderão reassumir
as funções que lhes cabem. O prejuízo de ambos é muito grande.
Depois de
pequena pausa, Alfredo rematou:
– Os voos de
grande altura pedem asas fortes.
Alonso, que
ouvia de olhos arregalados, considerou resignado:
– Desisto do
pedido. O senhor tem razão.
O
administrador abraçou-o e murmurou:
– Deus ilumine
o seu entendimento.
Admiradíssimo,
reparei que outros colaboradores se aproximavam, rogando esclarecimentos,
pareceres, edificando-me no exemplo do administrador amigo, que respondia em
voz firme e afetuosa, demonstrando interesse de irmão.
27 O caluniador
Enquanto o
administrador se entregava a conversações educativas com os numerosos
subordinados, Aniceto chamou-nos a pequena construção isolada e falou:
– Vejamos
outro ensinamento.
Avançamos na
direção de algumas câmaras separadas.
Nosso
instrutor abriu uma porta e vimos um louco, que parecia fundamente irritado.
Fixou em nós o olhar inexpressivo e gritou estentoricamente. Aniceto, porém,
adiantou-se e cumprimentou-o, atencioso:
– Como vai,
Paulo?
As palavras,
ao que senti, emitiram certo fluxo magnético e o enfermo revelou profunda
modificação. Aquietou-se de súbito. Sentou-se mais calmo, embora trêmulo e
espantadiço.
– Tem sentido
melhoras, Paulo? – perguntou nosso orientador, bondosamente, tocando-o no
ombro.
Ao contacto
pessoal de Aniceto, o doente mostrou algum raciocínio e respondeu:
– Vou
melhorando, graças...
A vista da
expressão reticenciosa, o instrutor falou em tom firme, como se desejasse
auxiliar-lhe a vontade enfraquecida:
– Termine!
O doente fez
enorme esforço e concluiu:
– Graças a
Deus!
Anotando-lhe o
sofrimento e a indecisão, lembrei dos enfermos das Câmaras, aos quais prestava
Narcisa ampla colaboração afetuosa. Percebendo-me as íntimas considerações,
disse o mentor esclarecido:
– Vêem a
diferença entre os que dormem, os que estão loucos e os que sofrem? Em “Nosso
Lar” não temos dos primeiros, e os que se encontram desequilibrados, nos
serviços da Regeneração, sentem, na maioria, angústias cruéis. É necessário
reconheçamos que os que gemem e sofrem, em qualquer parte, estão melhorando.
Toda lágrima sincera é bendito sintoma de renovação. Os escarnecedores, os
ironistas e os perturbados que não registram a dor são mais dignos de piedade,
por permanecerem embotados em estranha rigidez de entendimento.
E, designando
o enfermo sob nossos olhos, afirmou:
– Paulo é um
doente a caminho de melhora positiva. Ainda não possui a consciência exata da
situação, mas já chora, já padece com as recordações do passado triste.
Recebi o
esclarecimento com atenção. Lembrei-me que, de fato, os doentes conduzidos
pelos Samaritanos a “Nosso Lar”, em serviço diário, eram grandes sofredores. Os
que não acusavam padecimentos atrozes, revelavam estranho pavor das sombras. A
única entidade que ali observara, com absoluta inconsciência da própria
miséria, fora a de pobre vampiro que não encontrara guarida nas Câmaras de
Retificação.
Nosso
instrutor, sem qualquer preocupação de transformar o doente em cobaia,
recomendou, afetuoso:
– Concentrem
no Paulo a capacidade de visão!
Estimulado
pela experiência anterior, fixei nele todo o meu potencial de observação.
Aos poucos,
caracterizou-se a meus olhos a sua tela mental, parecendo formada em compacta
sombra noturna. Com surpresa, divisei formas diversas que se movimentavam.
Vários vultos de mulher ali surgiam, despertando-me enorme admiração. Entre eles,
reparei o de Ismália como que doente, enfraquecida, ansiosa. Alguns homens
passavam, igualmente, mostrando desesperação, e notei, nessas imagens, o
próprio Alfredo a evidenciar cansaço e extrema velhice prematura. Vozes
misteriosas se faziam ouvir. Sobre Paulo choviam maldições e blasfêmias. As
mulheres pareciam acusá-lo, clamorosamente; os homens davam ideia de
perseguidores ferozes, ocultos no mundo interior daquele enfermo estranho.
Observando, porém, que os vultos de Ismália e Alfredo se movimentavam naquele
painel escuro, não pude sofrear a curiosidade e interrompi o minucioso exame,
voltando a conversar com o nosso orientador, perguntando:
– Como
explicar o fenômeno? Estou assombrado!
Antes, porém,
que pudesse expressar maiormente o espanto que me dominara, Aniceto ajuntou:
– Já sei.
Admira-se da presença de Ismália e do seu marido nas reminiscências do enfermo.
E, ante a
minha perplexidade, continuou:
– Lembram-se
da história de Alfredo? Temos diante de nós o falso amigo que lhe arruinou o
lar. Paulo, contudo, não somente cometeu a ingratidão, como envenenou o espírito
doutras senhoras, traiu outros amigos e destruiu a alegria e a paz doutros
santuários domésticos. Observando Ismália aflita e Alfredo desesperado, nas
recordações dele, vemos as imagens criadas pelo caluniador, para seus próprios
olhos. Nossos amigos deste Posto evoluíram, transpuseram a fronteira da mágoa,
escaparam aos monstros do ódio, vestem-se hoje de luz; no entanto, Paulo os vê
como imagina, para escarmento de suas culpas. O criminoso nunca consegue fugir
da verdadeira justiça universal, porque carrega o crime cometido, em qualquer
parte. Tanto nos círculos carnais, como aqui, a paisagem real do Espírito é a
do campo interior. Viveremos, de fato, com as criações mais intimas de nossa
alma.
Reparando-me a
dificuldade para compreender de pronto, Aniceto prosseguiu, depois de pequeno
intervalo:
– Para melhor
elucidação, recordemos a crucificação do Mestre Divino. Sabemos que Jesus
penetrou na glória sublime logo após a suprema dor do Calvário; entretanto,
estamos ainda a vê-lo frequentemente pendurado na cruz, martirizado pelos
nossos erros, flagelado pelos nossos açoites, porque a visão interior a isso
nos compele. A condenação do Mestre foi um crime coletivo e esse crime estará conosco
até ao dia em que nos vestirmos na divina luz da redenção.
O
esclarecimento não poderia ser mais lúcido. Sentia-me diante de nobre
revelação.
– O dever
possui as bênçãos da confiança, mas a dívida tem os fantasmas da cobrança –
tornou o generoso mentor, com grave acento.
Readquirindo a
serenidade, interroguei:
– Mas Paulo
veio ter casualmente a este Posto?
– Não –
respondeu Aniceto, atencioso –; foi trazido pelo próprio Alfredo, que se sentiu
necessitado de disciplinar o coração. Nosso amigo, que hoje dirige esta casa de
amor, desprendeu-se do mundo, sob intensa vibração de ódio e desesperação.
Sofreu muitíssimo nos primeiros tempos, embora nunca fosse abandonado pela
dedicação da abnegada companheira. Alfredo, todavia, não pôde ver Ismália
enquanto não se desvencilhou das baixas manifestações do rancor. Socorrido em
“Campo da Paz”, compreendeu as próprias necessidades. Tão logo adquiriu algum
mérito, intercedeu pelo amigo infiel, buscou-o em recanto abismal, e tão
nobremente se dedicou ao aperfeiçoamento de si mesmo, que conquistou a posição
de administrador de um Posto de Socorro. Trouxe o tutelado em sua companhia e
trata-o como irmão, atualmente. Não julguem que o marido de Ismália conseguiu
essa vitória espiritual tão somente pelo fato de desejá-la. Ele desejou-a,
procurou-a, alimentou-a e, agora, permanece na realização. Há muitos anos
conversa com Paulo, diariamente. Nos primeiros tempos, aproximava-se do
enfermo, como necessitado de reconciliação; depois, como pessoa caridosa; mais
tarde adquiriu entendimento, comparando situações; em seguida, sentiu piedade;
logo após, experimentou simpatia e, presentemente, conquistou a verdadeira
fraternidade, o amor sublime de irmão pelo ex-inimigo.
Fazendo
pequena pausa, voltou a dizer, espirituosamente:
– Como vêem, o
ensinamento de Jesus, quanto ao “batei e abrir-se-vos-á”, é muito extenso. No
plano da carne, insistimos à porta das coisas exteriores, procurando
facilidades e vantagens; mas, aqui, temos de bater à porta de nós mesmos, para
encontrar a virtude e a verdadeira iluminação.
Vicente, que
até então se conservara calado, indagou:
– Paulo,
todavia, permanecerá aqui, indefinidamente?
Nosso
instrutor fez um gesto significativo e concluiu:
– Voltará
breve à Terra. Ismália tem feito a seu favor inúmeras intercessões e não deseja
que ele, ao retomar a razão plena, se sinta humilhado, com o benefício das
próprias vítimas. Uma das irmãs, por ele caluniada no mundo, já voltou ao
círculo carnal, e a abnegada esposa de Alfredo pediu-lhe que recebesse Paulo
como filho, tão logo seja oportuno.
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