domingo, 28 de agosto de 2022

30 DE AGOSTO

 CAPÍTULOS 20 E 21


20 Defesas contra o mal

 

Descemos as escadarias e, em frente dos muros altos, pude observar a extensão das defesas do soberbo edifício. Aquela construção grandiosa era muito mais importante que a de qualquer castelo antigo, transformado em fortaleza.

Novamente no exterior, podia detalhar a visão panorâmica com mais exatidão. Reconhecia, agora, que entráramos por um baluarte avançado, identificando a imponência da construção majestosa. Apresentavam-se-me as linhas gerais com nitidez.

Impressionavam-me, sobretudo, as fortificações. Via a torre de mensagem, consagrada, por certo, ao serviço de resistência; o baluarte agudo, elevando-se acima dos fossos que deixavam transbordar a água corrente; a torre de vigia, esbelta e alterosa. Observei o caminho da ronda, a cisterna, as seteiras e, em seguida, as paliçadas e barbacãs, refletindo na complexidade de todo aquele aparelhamento defensivo. E as armas? Identificava-lhes a presença na maquinaria instalada ao longo dos muros, copiando os pequenos canhões conhecidos na Terra. Entretanto, vi com emoção, no cume da torre de vigia, a enorme bandeira de paz, muito alva, tremulando ao vento como largo penacho de neve...

O administrador percebeu a estranheza que se apossara de Vicente e de mim.

– Já sei a impressão que a nossa defesa lhes causa – disse Alfredo, detendo-se para explicar.

Fixando-nos com o olhar muito lúcido, continuou:

– Naturalmente, não imaginavam necessárias tantas fortificações. Conforme vêem, nossa bandeira é de concórdia e harmonia; no entanto, é imprescindível considerar que estamos em serviço que precisaremos defender, em qualquer circunstância. Enquanto não imperar a lei universal do amor, é indispensável persevere o reinado da justiça. Nosso Posto está colocado, aqui, igualmente, como “ovelha em meio de lobos” e, embora não nos caiba efetuar o extermínio das feras, necessitamos defender a obra do bem contra os assaltos indébitos. As organizações dos nossos irmãos consagrados ao mal são vastíssimas. Não admitam a hipótese de serem, todos eles, ignorantes ou inconscientes. A maioria se constitui de perversos e criminosos. São entidades verdadeiramente diabólicas. Não tenham disso qualquer dúvida.

– Deus meu! – exclamou Vicente, admirado – mas porque se organizam deliberadamente para o mal? Não sabem, porventura, que todos os patrimônios universais pertencem à Majestade Divina? Não reconhecem o Soberano Poder?

– Ah! meu amigo – falou Alfredo em tom grave –, fiz as mesmas perguntas quando aqui cheguei pela primeira vez. As respostas que tive foram incisivas e concludentes. Poderíamos, Vicente, formular na Crosta as mesmas interrogações. Os criminosos que fazem as vítimas da guerra, os exploradores da economia popular, os avarentos misérrimos, os sedentos de injustificado predomínio e os vaidosos cheios de fatuidade sabem, tão bem quanto os nossos adversários daqui, que tudo pertence a Deus, que o homem é simples usufrutuário dos divinos bens. Não ignoram que os antepassados foram chamados à verdade e a contas pela morte, e que eles seguirão os mesmos caminhos; entretanto, atormentam-se na Crosta como verdadeiros loucos, amontoando possibilidades para a ruína e abusando das oportunidades mais santas. Aqui se verifica a mesma coisa. Querem dominar antes de se dominarem, exigem antes de dar e entram em perene conflito com o espírito divino da lei. Estabelecido o duelo entre a fantasia deles e a verdade do Pai, resistem às corrigendas do Senhor e transformam-se, esses desventurados, em verdadeiros gênios da sombra, até que, um dia, se decidam a novos rumos.

Intrigado com as profundas observações, perguntei:

– Mas, como explicar as bases de semelhante atitude? Na Terra, compreendemos certos enganos, mas aqui...

O generoso interlocutor não me deixou terminar e prosseguiu:

– Na Crosta, nossos irmãos menos felizes lutam pela dominação econômica, pelas paixões desordenadas, pela hegemonia de falsos princípios. Nestas zonas imediatas à mente terrestre, temos tudo isso em identidade de condições. Entre as entidades perversas e ignorantes, há cooperativas para o mal, sistemas econômicos de natureza feudalista, baixa exploração de certas forças da Natureza, vaidades tirânicas, difusão de mentiras, escravização dos que se enfraquecem pela invigilância, doloroso cativeiro dos Espíritos falidos e imprevidentes, paixões talvez mais desordenadas que as da Terra, inquietações sentimentais, terríveis desequilíbrios da mente, angustiosos desvios do sentimento. Em todo o lugar, meu amigo, as quedas espirituais, perante o Senhor, são sempre as mesmas, embora variem de intensidade e coloração.

– Mas... e as armas? – perguntei – acaso são utilizadas?

– Como não? – disse Alfredo, pressuroso – não temos balas de aço, mas temos projéteis elétricos. Naturalmente, a ninguém atacaremos. Nossa tarefa é de socorro e não de extermínio.

– No entanto – aduzi, sob forte impressão –, qual o efeito desses projéteis?

– Assustam terrivelmente – respondeu ele, sorrindo – e, sobretudo, demonstram as possibilidades de uma defesa que ultrapassa a ofensiva.

Mas apenas assustam? – tornei a interrogar.

Alfredo sorriu mais significativamente e acrescentou:

– Poderiam causar a impressão de morte.

– Que diz! – exclamei com insofreável espanto.

O administrador meditou alguns instantes e, ponderando, talvez, a gravidade dos esclarecimentos, obtemperou:

– Meu amigo! meu amigo! se já não estamos na carne, busquemos desencarnar também os nossos pensamentos. As criaturas que se agarram, aqui, às impressões físicas, estão sempre criando densidade para os seus veículos de manifestação, da mesma forma que os Espíritos dedicados à região superior estão sempre purificando e elevando esses mesmos veículos. Nossos projéteis, portanto, expulsam os inimigos do bem através de vibrações do medo, mas poderiam causar a ilusão da morte, atuando sobre o corpo denso dos nossos semelhantes menos adiantados no caminho da vida. A morte física, na Terra, não é igualmente pura impressão? Ninguém desaparece. O fenômeno é apenas de invisibilidade ou, por vezes, de ausência. Quanto à responsabilidade dos que matam, isto é outra coisa. E além desta observação, que é da alçada da Justiça Divina, temos a considerar, igualmente. que, nesta esfera, o corpo denso modificado pode ressurgir todos os dias, pela matéria mental destinada à produção dele, enquanto que, para obter o corpo físico, almas há que trabalham, por vezes, durante séculos...

Vicente e eu caláramos, estupefatos.

Alfredo sorriu serenamente e perguntou, bem humorado:

– Vocês conhecem a lenda hindu da serpente e do santo?

Ante a nossa expressão negativa, o administrador continuou:

– Contam as tradições populares da Índia que existia uma serpente venenosa em certo campo. Ninguém se aventurava a passar por lá, receando-lhe o assalto. Mas um santo homem, a serviço de Deus, buscou a região, mais confiado no Senhor que em si mesmo. A serpente o atacou, desrespeitosa. Ele dominou-a, porém, com o olhar sereno, e falou: – Minha irmã, é da lei que não façamos mal a ninguém. A víbora recolheu-se, envergonhada. Continuou o sábio o seu caminho e a serpente modificou-se completamente. Procurou os lugares habitados pelo homem, como desejosa de reparar os antigos crimes. Mostrou-se integralmente pacífica, mas, desde então, começaram a abusar dela. Quando lhe identificaram a submissão absoluta, homens, mulheres e crianças davam-lhe pedradas. A infeliz recolheu-se à toca, desalentada. Vivia aflita, medrosa, desanimada. Eis, porém, que o santo voltou pelo mesmo caminho e deliberou visitá-la. Espantou-se, observando tamanha ruína. A serpente contou-lhe, então, a história amargurada. Desejava ser boa, afável e carinhosa, mas as criaturas perseguiam-na e apedrejavam-na. O sábio pensou, pensou e respondeu após ouvi-la:

– Mas, minha irmã, houve engano de tua parte. Aconselhei-te a não morderes ninguém, a não praticares o assassínio e a perseguição, mas não te disse que evitasses de assustar os maus. Não ataques as criaturas de Deus, nossas irmãs no mesmo caminho da vida, mas defende a tua cooperação na obra do Senhor. Não mordas, nem firas, mas é preciso manter o perverso a distância, mostrando-lhe os teus dentes e emitindo os teus silvos.

Nesse momento, Aniceto sorriu de maneira expressiva.

O administrador fez longa pausa e concluiu:

– Creio que a fábula dispensa comentário.

 

 

21 Espíritos dementados

 

Inúmeros servidores acompanhavam-nos ao serviço. Movimentavam-se carregadores sem conta. Conduziam grandes botijas d'água, caldeirões de sopa, vasos de substância medicamentosa, em galeotas diversas.

Mais alguns passos e notei que centenas de entidades se reuniam em vastos albergues, olhos vagueantes e rostos sombrios, parecendo uma assembleia de loucos em manicômio de amplas proporções.

Alfredo aconselhou umas tantas providências de serviço à maioria dos técnicos do sopro curativo, os quais se desviaram de nós, rumo às edificações situadas em zona diferente.

Gentilmente nos explicava que os benfeitores de “Campo da Paz” localizavam, ali, grande número de Espíritos enfermos, mais desequilibrados que propriamente perversos. Os doentes que tínhamos sob os olhos permaneciam em melhores condições. Já se locomoviam e muitos deles já conversavam, apesar do desequilíbrio que lhes assinalava as palavras e pensamentos.

Esclarecia-nos sobre as múltiplas obrigações do trabalho de rotina, quando algumas entidades se acercaram, respeitosas:

– Senhor Alfredo – disse um velho de barbas muito alvas –, estou aguardando o resultado da minha petição. Em que ficamos, quanto às minhas terras e os escravos? Paguei bom preço ao Carmo Garcia. Sabe o senhor que venho sendo perseguido durante muitos anos, e não posso perder mais tempo. Quando volto para casa? Creio esteja o senhor ciente da necessidade de eu voltar ao seio dos meus. Esperam-me a mulher e os filhos.

Como excelente médico da alma, Alfredo prestou a maior atenção e respondeu, como se estivesse tratando com pessoa de bom senso:

– Sim, Malaquias, você reclama com razão, mas sua saúde não permite o regresso apressado. Você sabe que sua esposa, Dona Sinhá, pediu fosse você aqui tratado convenientemente. Creio que ela deve estar muito tranquila a seu respeito. Suas ideias, porém, meu amigo, não estão ainda bem coordenadas. Temos alguma coisa mais a fazer. Porque preocupar-se tanto, assim, com as terras e os escravos? Primeiramente a saúde, Malaquias; não esqueça a saúde!

O velho sorriu, como o doente apoiado na firmeza e no otimismo do médico.

– Reconheço que as suas observações são justas, mas meus filhos não se movem sem mim, são preguiçosos e necessitam da minha presença.

Mas, doutrinando sutilmente o pobre velhinho, o administrador objetou:

– Entretanto, donde vieram os filhos para os seus braços paternos? Não vieram das mãos de Deus?

– Sim, sim... – afirmava o ancião, trêmulo e satisfeito.

– Pois é isso, Malaquias, chegam instantes na vida, em que precisamos devolver a Deus o que a Ele pertence. Além do mais, seus filhos são também responsáveis e, se forem ociosos, responderão pelos males que criarem em torno de si mesmos. Por agora, é indispensável que você se refaça, aclare as ideias e sossegue o coração.

O velho sorriu, confortado, mas, antes que pudesse falar de novo, um cavalheiro, denotando nobre aprumo, adiantou-se, exclamando:

– E a solução do meu processo, senhor Alfredo? Sinto-me prejudicado pelos parentes de má fé. Minha parte na herança dos avós é cobiçada pelos primos. Segundo já lhe fiz ver, meu quinhão é superior aos demais. Soube, todavia, que o Visconde de Cairu interpôs toda a sua influência contra mim. Ninguém ignora tratar-se de um grande velhaco. Que não poderá ele fazer com as artimanhas políticas? Está mal informado a meu respeito. O senhor enviou meu pedido ao Imperador?

– Já expedi a mensagem – esclareceu Alfredo com carinho fraternal –, o Imperador certamente levará em conta a solicitação.

– Entretanto, a demora é muito grande!... – falou o cavalheiro, impaciente, como se estivesse diante de um subordinado vulgar.

– Mas, meu caro Aristarco – respondeu o administrador, muito calmo –, acredito que você está sendo experimentado para conhecer a grandeza da herança divina. Que valem os patrimônios terrestres, ante os patrimônios imperecíveis? Não pense no que tem perdido; medite nos bens sublimes que poderá alcançar, diante da Vida Eterna. Esqueça os primos ambiciosos e o Visconde que não o compreendeu. Terão eles de deixar quanto possuem, no campo transitório, a fim de prestarem contas à Divindade. Nunca pensou nisto?

Aristarco pareceu perder, por momentos, a inquietação, sorriu francamente e respondeu:

– É verdade! Os tratantes morrerão...

Uma senhora, mostrando-se aflita, pôs-se à nossa frente e interpelou, altiva:

– Senhor Alfredo, peço-lhe não me retenha aqui. Meu marido é nosso próprio adversário. Prometeu perseguir as filhas, tão logo me ausentasse de casa. Aqui permanecendo, estou certa de que ele nos dissipará os bens, desmoralizar-nos-á o nome. Por favor, autorize o meu regresso. O coração me diz que as filhinhas estão desesperadas. Convenço-me, cada vez mais, de que minha moléstia teve origem neste estado de coisas...

– Já sei, minha irmã – respondeu o nosso amigo com a mesma solicitude –; no entanto, que adiantaria regressar, tão fortemente atormentada? Não será melhor curar-se, tranquilizar o espírito para ajudar as filhinhas com eficiência?

– Mas, nem sequer sei onde estou – reclamou a pobre senhora, torcendo as mãos –, creio me tenham trazido ao fim do mundo, para tratamento de uma simples perda de sentidos!

– Todavia, ninguém a maltrata – disse o interlocutor, bondosamente – e seu caso não é tão simples como parece. Tenha calma. Os laços consanguíneos são edificantes, mas, acima deles, vibra a família universal. Há criaturas suportando fardos muito mais pesados que o seu. Aprenda, quanto esteja em suas possibilidades, a desfazer-se de aquisições passageiras, para ganhar os eternos bens.

A infeliz não sorriu como os outros. Fechando-se em sombria catadura, afastou-se pesadamente, olhos fulgurantes de cólera, como se a mente estivesse cravada muito longe, incapaz de qualquer compreensão.

Adiantaram-se outros enfermos, mas o administrador falou em voz alta:

– Não posso atender a todos no momento. Depois de amanhã, serão recebidos para explicações.

E, voltando-se para nós, esclareceu a sorrir:

– No círculo carnal, seriam todos absolutamente normais; no entanto, aqui, são verdadeiros loucos. São desencarnados que, por muito tempo, se agarraram aos problemas inferiores. Reclamam providências, sem falar no ensejo de iluminação que menosprezaram, acusam os outros, sem relacionarem os próprios erros. Procurei ouvi-los para lhes dar uma ideia do nosso trabalho, no setor dos que se desequilibram mentalmente por excesso de centralização em propósitos inferiores. Não é crime interessar-se alguém pelas atividades rurais, pela recepção de uma herança, pelo bem estar da família; mas, no fundo, o velhinho que reclama terras e escravos nunca pensou senão em tirania no campo; o cavalheiro, que aguarda a herança, deseja lesar os primos; e a senhora, que se revelou tão interessada pelo ambiente doméstico, desencarnou quando pretendia envenenar o marido, às ocultas.

Conheço-lhes os processos, um a um. Acordaram de longo sono, na inconsciência, e julgam-se ainda encarnados, supondo igualmente que podem dissimular as pretensões criminosas.

Eu estava assombrado. Expressando minha profunda admiração, perguntei:

– Esses doentes demoram-se aqui? Como alcançaram o Posto?

Gentil, como sempre, Alfredo respondeu:

– Foram recolhidos em pior estado. Já estiveram em pesado sono durante muito tempo e vão readquirindo a memória, gradativamente, até que possam ser encaminhados aos Institutos Magnéticos de “Campo da Paz”, a fim de receberem maiores auxílios e necessários esclarecimentos.


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