CAPÍTULOS 13, 14 E 15
Pelo grande conteúdo de material apresentado, decidimos não apontar grifos afim de reflexões pontuais. Existem muitas informações que são bem interessantes e totalmente fora da vida encarnada. E despertam ideias de comportamento que existem no Plano Espiritual, na Vida em que o corpo físico não atua. Façamos uma reflexão sobre tudo o que é apresentado e notemos as informações que mais despertem em nós o interesse, a curiosidade e a vontade de saber mais sobre.
13 Ponderações
de Vicente
Não estava
farto de lições, mas, para o momento, havia aprendido bastante. Impressionado
com o que me fora dado observar, não insisti com Vicente para prolongar nossa
demora no Centro de Mensageiros.
Deixando
grandes grupos em conversação ativa, reconstituindo projetos e refazendo
esperanças, segui o companheiro que me convidava a visitar os imensos jardins.
Roseirais enormes balsamizavam a atmosfera leve e límpida.
– Sinto-me
fortemente impressionado – murmurei –. Quem diria pudessem caber tantas
responsabilidades a essas criaturas? Não conheci pessoalmente nenhum médium ou
doutrinador do Espiritismo, justificando agora minha surpresa.
Vicente sorriu
e ponderou:
– Você, meu
caro, procede das Câmaras de Retificação, onde os trabalhos são muito
reservados e circunscritos. Talvez sua impressão provenha dessa circunstância.
Verá, porém, com o tempo, que existem aqui locais de conversações dessa
natureza, referentes a todas as oportunidades perdidas. Já visitou alguma
dependência do Ministério do Esclarecimento?
– Não.
–
Localizam-se, ali, os enormes pavilhões das escolas maternais. São milhares de
irmãs que comentam, por lá, as desventuras da maternidade fracassada, buscando
reconstituir energias e caminhos. Ainda ali, temos os Centros de Preparação à
Paternidade. Grandes massas de irmãos examinam o quadro de tarefas perdidas e
recordam, com lágrimas, o passado de indiferença ao dever. Nesse mesmo
Ministério, temos a Especialização Médica. Nobres profissionais da Medicina,
que perderam santas oportunidades de elevação, lá discutem seus problemas.
Nesse instante
o interrompi, observando:
– Entretanto,
somos médicos e não nos achamos lá.
– Sim –
explicou Vicente, bondoso –, infelizmente para nós ambos, caímos em toda a
linha. Não só na qualidade de médicos, mas muito mais como homens, pois que, se
disse a você o que sofri, ainda não contei o que fiz.
– É verdade –
concordei, desapontado, recordando minha condição de suicida inconsciente.
– Ainda no
Esclarecimento – prosseguiu o companheiro –, temos o Instituto de
Administradores, onde os Espíritos cultos procuram restaurar as forças próprias
e corrigir os erros cometidos na mordomia terrestre. Nos Campos de Trabalho, do
Ministério da Regeneração, existem milhares de trabalhadores que se renovam
para a recapitulação das grandes tarefas da obediência.
– Somos
numerosos – continuou, sorridente – os falidos nas missões terrestres e note-se
que todos os que hajam chegado a zonas como “Nosso Lar” devem ser levados à
conta dos extremamente felizes. Temos aqui dois Ministérios Celestiais, como o
da Elevação e o da União Divina, cuja influenciação santificante eleva o padrão
dos nossos pensamentos sem que o percebamos de maneira direta. O estágio aqui,
André, representa uma bênção do Senhor e, por muito que trabalhássemos, nunca
retribuiríamos a esta colônia na medida de nosso débito para com ela. Nossa
situação é a de abrigados em verdadeiro paraíso, pelo ensejo de serviço
edificante que se nos oferece. Quanto a outros companheiros nossos...
Fez longo
hiato e continuou:
– Quanto a
muitos, estão fazendo angustiosas estações de aprendizado nas regiões mais
baixas. São infelizes prisioneiros uns dos outros, pela cadeia de remorsos e
malignas recordações. No que concerne à Medicina, os colegas em bancarrota
espiritual são inúmeros. A saúde humana é patrimônio divino e o médico é
sacerdote dela. Os que recebem o título profissional, em nosso quadro de
realizações, sem dele se utilizarem a bem dos semelhantes, pagam caro a
indiferença. Os que dele abusam são, por sua vez, situados no campo do crime.
Jesus não foi somente o Mestre, foi Médico também. Deixou no mundo o padrão da
cura para o Reino de Deus. Ele proporcionava socorro ao corpo e ministrava fé à
alma. Nós, porém, meu caro André, em muitos casos terrestres, nem sempre
aliviamos o corpo e quase sempre matamos a fé.
As palavras
sensatas do amigo caiam-me n’alma como raios de luz. Tudo era a verdade,
simples e bela. Ainda não pensara, de fato, em toda a grandeza do serviço
divino de Jesus Médico. Ele expulsara febres malignas, curara leprosos e cegos
de nascença, levantara paralíticos, mas nunca ficava apenas nisto. Reanimava os
doentes, dava-lhes esperanças novas, convidava-os à compreensão da Vida Eterna.
Engolfara-me
em pensamentos grandiosos, quando o companheiro voltou a falar:
– Tenho um
amigo, nosso colega de profissão, que se encontra nas zonas inferiores, há
alguns anos, atormentado por dois inimigos cruéis. Acontece que ele muito faliu
como homem e médico. Era cirurgião exímio, mas, tão logo alcançou renome e
respeito geral, impressionou-se com as aquisições monetárias e caiu
desastradamente. Nos dias de grandes negócios financeiros, deslocava a mente
das obrigações veneráveis, colocando-a distante, na esfera dos banqueiros
comuns. Não fosse a proteção espiritual, essa atitude teria comprometido
oportunidades vitais de muita gente. A colaboração do pobre amigo tornara-se
quase nula, e alguns desencarnados nas intervenções cirúrgicas que ele praticava,
notando-lhe a irresponsabilidade, atribuíram-lhe a causa da morte física,
quando não a esperavam, votando-lhe ódio terrível. Amigos do operador prestaram
esclarecimentos justos a muitos; entretanto, dois deles, mais ignorantes e
maldosos, perseveraram na estranha atitude e o esperaram no limiar do sepulcro.
– Horrível! –
exclamei. Se ele, porém, não é culpado da desencarnação desses adversários
gratuitos, como pode ser atormentado desse modo?
Explicou
Vicente, em tom mais grave:
– Realmente,
não tem a culpa da morte deles. Nada fez para interromper-lhes a existência
física. Mas é responsável pela inimizade e incompreensão criadas na mente
dessas pobres criaturas, porque, não estando seguro do seu dever, nem tranquilo
com a consciência, o nosso amigo julga-se culpado, em razão das outras falhas a
que se entregou imprevidentemente. Todo erro traz fraqueza e, assim sendo, o
nosso colega, por enquanto, não adquiriu forças para se desvencilhar dos
algozes. Perante a Justiça Divina, portanto, ele não resgata crimes
inexistentes, mas repara certas faltas graves e aprende a conhecer-se a si
mesmo, a entender as obrigações nobres e praticá-las, compreendendo, por fim, a
felicidade dos que sabem ser úteis com segurança de fé em Deus e em si mesmos.
A noção do dever bem cumprido, André, ainda que todos os homens permaneçam
contra nós, é uma luz firme para o dia e abençoado travesseiro para a noite. O
nosso colega, tendo abusado da profissão, entrou em dolorosa prova.
– Ah! sim –
exclamei –, agora compreendo. Onde exista uma falta, pode haver muitas
perturbações; onde apagamos a luz, podemos cair em qualquer precipício.
– Justamente.
Calou-se o
amigo, andando, muito tempo, ao meu lado, como se estivesse surpreendido, como
eu, defrontando as avenidas de rosas. Depois de longas meditações, convidou-me
fraternalmente:
– Regressemos
ao nosso núcleo. Creio devamos ouvir Aniceto, ainda hoje, referentemente ao
serviço comum.
14 Preparativos
A noite,
Aniceto veio ver-nos, começando por dizer:
– Amanhã
deveremos partir os três, a serviço nas esferas da Crosta. Telésforo
recomendou-me certas atividades de importância, mas posso atendê-las em
particular, proporcionando a ambos uma estação semanal de experiência e
serviço.
Fiquei
radiante. Muita vez regressara ao ninho doméstico, tornara à cidade em que
desenvolvera a tarefa última e, todavia, não me detivera no exame das
possibilidades extensas do concurso fraternal. De quando em vez, era defrontado
por situações difíceis, nas quais velhos conterrâneos encaravam problemas de
vulto; entretanto, sentia-me incapaz de auxiliá-los, eficientemente, na solução
desejável. Faltava-me técnica espiritual para fazê-lo. Não tinha bastante
confiança em mim mesmo.
Deixando
perceber que ouvira meus pensamentos profundos, Aniceto dirigiu-me a palavra de
maneira especial, asseverando:
– Você, André,
ainda não pôde auxiliar os amigos encarnados porque ainda não adquiriu a devida
capacidade para ver. É razoável. Quando na carne, somos muitas vezes inclinados
a verificar tão somente os efeitos, sem ponderar as origens. No mendigo, vemos
apenas a miséria; no enfermo, somente a ruína física. Faz se indispensável
identificar as causas.
Depois de
meditar alguns momentos, prosseguiu:
–
Procuraremos, contudo, remediar a situação. Amanhã, pela madrugada, você e
Vicente apareçam no Gabinete de Auxílio Magnético às Percepções, que fica junto
ao Centro de Mensageiros. Darei as providências para que vocês alcancem o
necessário melhoramento da visão. Peço-lhes, todavia, receberem semelhante auxílio
em prece. Roguem a Deus lhes permita a dilatação do poder visual.
Compenetrem-se da grandeza desse dom sublime. E, sobretudo, enviem à Majestade
Eterna um pensamento de consagração ao seu amor e aos seus serviços divinos.
Não desejo induzi-los a atitudes de fanatismo sem consciência. Não podemos
abusar da oração aqui, segundo antigas viciações do sentimento terrestre. No
círculo carnal, costumamos utilizá-la em obediência a delituosos caprichos,
suplicando facilidades que surgiriam em detrimento de nossa própria iluminação.
Aqui, todavia, André, a oração é compromisso da criatura para com Deus,
compromisso de testemunhos, esforço e dedicação aos superiores desígnios. Toda
prece, entre nós, deve significar, acima de tudo, fidelidade do coração. Quem
ora, em nossa condição espiritual, sintoniza a mente com as esferas mais altas
e novas luzes lhe abrilhantam os caminhos.
Diante da
nobre autoridade de Aniceto, não me atrevi a falar e cheguei mesmo a recear a
externação de qualquer pensamento.
Deixou-nos o
generoso instrutor com palavras carinhosas de amizade e incentivo.
Vicente e eu
acalentávamos projetos magníficos. Fiamos, pela primeira vez, cooperar a favor
dos encarnados em geral. Nosso repouso noturno foi brevíssimo. Aguardávamos,
ansiosamente, a alvorada, a fim de receber o auxílio magnético do Gabinete
referido.
Poucas vezes
orei com a emoção daquela hora. Os esclarecidos técnicos da instituição
colocaram-nos, primeiramente, em relação mental direta com eles e, em seguida,
submeteram-nos a determinadas aplicações espirituais, que ainda não posso
compreender em toda a extensão e transcendência. Observei, contudo, que a
colaboração magnética não nos retirava o sentido consciencial, e aproveitei a
oportunidade para a oração sincera, que era mais um compromisso de trabalho que
ato de súplica, propriamente considerado.
Decorrido
certo tempo, fomos declarados em liberdade para sair, quando nos prouvesse.
A princípio,
nada notei de extraordinário, embora sentisse, dentro do coração, nova coragem
e alegria diferente. Experimentava bom ânimo, até então desconhecido. Meus
sentidos da visão e da audição pareciam mais límpidos.
Aniceto, que
se mostrava muito satisfeito, esperava-nos no Centro, marcando a partida para o
meio-dia.
Ansioso,
aguardei o instante aprazado.
Não nos
ausentamos de “Nosso Lar” como os viajores terrestres, geralmente carregados de
matalotagens e volumes diversos.
– Aqui – disse
Aniceto jocosamente –, toda a nossa bagagem é a do coração. Na Terra, malas,
bolsas, embrulhos; mas, agora, devemos conduzir propósitos, energias,
conhecimentos e, acima de tudo, disposição sincera de servir.
Alguns
companheiros presentes riram-se com gosto.
Nesse
instante, nosso orientador fez algumas recomendações. Designou colegas para a
chefia de turmas de aprendizado, estabeleceu programas de serviço e notificou
que voltaria à colônia, diariamente, por algumas horas, deixando-nos, Vicente e
eu, nos serviços da Crosta, em trabalhos e observações que deveriam
prolongar-se por toda a semana.
Despedimo-nos
dos camaradas de luta, repletos de esperança. Era a nossa primeira excursão de
aprendizado e cooperação aos semelhantes.
Quando nos
puséramos a caminho, nosso Instrutor observou:
– Creio que a
viagem para vocês será diferente. Certo, estão habituados à passagem livre,
mantida por ordem superior para as atividades normais de nossos trabalhos e
trânsito dos irmãos esclarecidos, em vésperas de reencarnação.
– Como assim?
– perguntou Vicente, admirado.
– Pois não
sabia? As regiões inferiores, entre “Nosso Lar” e os círculos da carne, são tão
grandes que exigem uma estrada ampla e bem cuidada, requerendo também
conservação, como as importantes rotas terrestres. Por lá, obstáculos físicos;
por cá, obstáculos espirituais. As vias de comunicação normais destinam-se a
intercâmbio indispensável. Os que se encontram nas tarefas da nossa rotina
sagrada precisam livre trânsito e os que se dirigem da. esfera superior à
reencarnação devem seguir com a harmonia possível, sem contacto direto com as
expressões dos círculos mais baixos. A absorção de elementos inferiores
determinaria sérios desequilíbrios no renascimento deles. Há que evitar
semelhantes distúrbios. Nós, porém, seguimos numa expedição de aprendizado e
experiência. Não devemos, por isso, preferir os caminhos mais fáceis.
Identificando-nos
a perplexidade, Aniceto concluiu:
– Imaginemos
um rio de imensas proporções. separando duas regiões diferentes. Existe o vau
que oferece transporte rápido e há passagens diversas através de fundos
precipícios.
Pela expressão
do bondoso instrutor, concluí que ele poderia voltar à colônia quando quisesse,
que não encontraria obstáculos de qualquer ordem, em parte alguma, em razão do
poder espiritual de que se achava revestido, mas fazia-se peregrino, como nós,
por devotamento à missão de ensinar. Vicente e eu não dispúnhamos de expressão
vibratória adequada aos grandes feitos. Éramos vulgares, quanto o era a maioria
dos habitantes da nossa cidade espiritual. Possuíamos apenas alguns princípios
de volitação; contudo, permanecíamos muito distantes do verdadeiro poder. Nunca
vira, pois, a energia e a humildade em tão belo consórcio. Aniceto dirigia-nos,
firmemente, como orientador de pulso, vigoroso e sábio, mas não vacilava em se
fazer igual a nós, a fim de servir como devotado companheiro.
Meditando
sobre a lição sublime, em pleno impulso volitante, contemplei as torres de
“Nosso Lar”, que iam ficando a distância...
15 A viagem
Depois de
empregarmos o processo de condução rápida, atravessando imensas distâncias,
surgiu uma região menos bela. O firmamento cobrira-se de nuvens espessas e
alguma coisa que eu não podia compreender impedia-nos a volitação com
facilidade. Creio que o mesmo não acontecia ao nosso instrutor, mas Vicente e
eu fazíamos enorme esforço para acompanhá-lo.
Aniceto
percebeu, de pronto, nossos obstáculos e considerou:
– Será
conveniente utilizarmos a locomoção. A atmosfera começa a pesar muitíssimo e
não devemos andar muito distante de Campo da Paz. Não precisaremos ir até lá;
todavia, descansaremos no Posto de Socorro. Encontraremos, ali, os recursos
indispensáveis.
– Mas, que é
isto? – perguntei, admirado da profunda modificação ambiente.
– Estamos
penetrando a esfera de vibrações mais fortes da mente humana. Achamo-nos a
grande distância da Crosta; entretanto, já podemos identificar, desde logo, a
influenciação mental da Humanidade encarnada. Grandes lutas desenrolam-se
nestes planos e milhares de irmãos abnegados aqui se votam à missão de ensinar
e consolar os que sofrem. Em parte alguma escasseia o amparo divino.
Nesse
instante, chegáramos ao cume de grande montanha, envolvida em sombra fumarenta.
No solo, desenhavam-se trilhas diversas, à maneira de labirintos bem formados.
Observando-nos a estranheza, Aniceto falou com otimismo:
– Sigamos!
Nesse momento,
ó Deus de Bondade! alguma coisa imprevista me felicitava o coração.
Contrastando as sombras, raios de luz desprendiam-se intensamente de nossos
corpos. Extraordinária comoção apossou-se-me d'alma. Vicente e eu ajoelhamo-nos
a um só tempo, banhados em lágrimas, enviando ao Eterno os nossos profundos
agradecimentos, em votos de júbilo fervoroso. Estávamos embriagados de ventura.
Era a primeira vez que me vestia de luz, luz que se irradiava de todas as
células do meu corpo espiritual. Aniceto, que se mantinha de pé, a contemplar-nos
com expressão de alegria, falou comovidamente:
– Muito bem,
meus amigos! Agradeçamos a Deus os dons de amor, sabedoria e misericórdia.
Saibamos manifestar ao Pai o nosso reconhecimento. Quem não sabe agradecer, não
sabe receber e, muito menos, pedir.
Durante muito
tempo, Vicente e eu mantivemo-nos em prece repleta de alegrias e de lágrimas...
Em seguida, retomamos a marcha, como se estivéssemos vestidos em sublime
luminosidade.
As surpresas,
no entanto, sucediam-se ininterruptamente.
Aquelas vias
de comunicação eram muito diversas das que conhecia até ali. Mergulhávamos num
clima estranho, onde predominavam o frio e a ausência de luz solar. A
topografia era um conjunto de paisagens misteriosas, lembrando filmes
fantásticos da cinematografia terrestre. Picos altíssimos semelhavam vigorosas
agulhas de treva, desafiando a vastidão. Descíamos sempre, como viajores
ladeando escuros precipícios, em país de exotismo ameaçador. Esquisita
vegetação subia do solo, de espaço a espaço, entre os grandes abismos. Aves de
horripilante aspecto surgiam, medrosas, de quando em quando, enchendo o
silêncio de pios angustiados. Rija ventania soprava em todas as direções.
Fundamente
assombrado, cobrei ânimo e perguntei ao nosso instrutor:
– Que dizeis
de tudo isto? Ignorava que houvesse tais regiões entre a Crosta e nossa cidade
espiritual. À nossa frente, sinto um mundo novo, que me é totalmente
desconhecido... Por quem sois, nobre Aniceto, nada vos pergunto por ociosidade,
mas estas terras me surpreendem profundamente.
Aniceto,
sempre amável, sorriu docemente e respondeu:
– Todo este
mundo que vemos é continuação de nossa Terra. Os olhos humanos vêem apenas
algumas expressões do vale em que se exercitam para a verdadeira visão
espiritual, como nós outros que, observando agora alguma coisa, não estamos
igualmente vendo tudo.
Este, André, é
um domínio diferente. A percepção humana não consegue apreender senão
determinado número de vibrações. Comparando as restritas possibilidades humanas
com as grandezas do Universo Infinito, os sentidos físicos são muitíssimo
limitados. O homem recebe reduzido noticiário do mundo que lhe é moradia. É
verdade que tem devassado com a sua ciência problemas profundos. A astronomia
terrena conhece que o Sol, por medidas aproximadas, é 1.300.000 vezes maior que
a Terra e que a estrela Capela é 5.800 vezes maior que o nosso Sol; sabe que
Arcturo equivale a milhares de sóis, iguais ao que nos ilumina; está informada
de que Canópus corresponde a 8.760 sóis idênticos ao nosso, reunidos; mediu as
distâncias entre o nosso planeta e a Lua; acompanha certos fenômenos em Marte,
Saturno, Vênus e Júpiter; sonda os milhões de sóis aglomerados na Via-Láctea;
conhece as estrelas variáveis, as nebulosas espirais e difusas. E não param as
observações humanas na grandeza ilimitada do Macrocosmo. A Ciência vai,
igualmente, aos círculos atômicos analisa a materialização da energia, o
movimento dos elétrons, estuda o bombardeio de átomos e esquadrinha corpúsculos
diversos. Mas todo esse trabalho, com a colaboração das lunetas de alta
potência e dos geradores de milhões de volts, ainda é serviço que apenas
identifica os aspectos exteriores da vida. Há, porém, André, outros mundos
sutis, dentro dos mundos grosseiros, maravilhosas esferas que se interpenetram.
O olho humano sofre variadas limitações e todas as lentes físicas reunidas não
conseguiriam surpreender o campo da alma, que exige o desenvolvimento das
faculdades espirituais para tornar-se perceptível. A eletricidade e o
magnetismo são duas correntes poderosas que começam a descortinar aos nossos
irmãos encarnados alguma coisa dos infinitos potenciais do invisível, mas ainda
é cedo para cogitarmos de êxito completo. Somente ao homem de sentidos
espirituais desenvolvidos é possível revelar alguns pormenores das paisagens
sob nossos olhos. A maioria das criaturas ligadas à Crosta não entende estas
verdades, senão após perderem os laços físicos mais grosseiros. È da lei, que
não devemos ver senão o que possamos observar com proveito.
Nessa altura,
Aniceto calou-se.
Comovido com
as instruções, guardei religioso silêncio.
Agora, em meio
das sombras, divisava. alguns vultos negros, que pareciam fugir apressados,
confundindo-se na treva das furnas próximas.
Nosso
orientador avisou, cauteloso:
– Procuremos
interromper os efeitos luminosos do nosso corpo espiritual. Bastará que pensem
com vigor na necessidade dessa providência. Estamos atravessando extensa zona,
a que se acolhem muitos desventurados, e não é justo humilhar os que sofrem com
a exibição de nossos bens.
Obedecendo ao
conselho, verifiquei o efeito imediato. Os fios de luz que me irradiavam do
corpo apagaram-se como por encanto. A excursão tornou-se menos agradável.
Descíamos, milagrosamente, através dos despenhadeiros de longa extensão. A
sombra fizera-se mais densa, a ventania mais lamentosa e impressionante.
Após algum
tempo de marcha em silêncio, divisamos ao longe um grande castelo iluminado.
Aniceto fez um gesto significativo com o indicador e explicou:
– É um dos
Postos de Socorro de Campo da Paz.
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